terça-feira, 26 de agosto de 2014

MARIA, A MÃE BURREGO

Ela nasceu Maria, nos últimos anos do século 19. Não se sabe ao certo de onde ela veio. Sabe-se apenas, e é tudo que basta, que várias gerações de itaporanguenses, ao longo de algumas décadas, chegaram ao mundo ajudados por ela. Maria virou Mãe Burrego quando se iniciou no oficio de parteira. Aliás, a melhor e mais competente que a cidade conheceu. Do marido herdou o apelido, como a maioria das pessoas que nascem no interior, que geralmente são identificadas pelo nome ou sobrenome do marido ou da família.

A nossa Mãe Burrego, que nasceu Maria, como a mãe de Jesus, que também é a mãe de todos nós, gostava de ser tratada e reverenciada pelos seus feitos e a ajuda que oferecia as parturientes de Misericórdia.

Maria morava no final da avenida Getulio Vargas, a principal artéria de Itaporanga, lá perto do terreno que hoje abriga a Estação Rodoviária. Todo dia, logo cedo, ela descia a avenida. Ia por um lado e voltava pelo outro. Penso até que ela foi a primeira e a única pessoa na sua cidade que obedecia instintivamente as leis do trânsito. Descia pela direita e voltava pela direita.

Esbelta, elegante, sempre bem posta, usando na cintura um cinto feito com o mesmo tecido do vestido, todo dia lá ia ela com um pano no ombro, o cabelo liso e grisalho preso por uma marrafa, rua abaixo ou rua acima, parando a todo instante:

-  Menino, cadê a benção de Mãe Burrego?
-  Benção, Mãe Burrego...
-  Deus te abençoei, meu filho.

A cada criança um interrogação, uma benção, uma despedida. Para os adultos e dos adultos um cumprimento respeitoso, quase familiar.

- Bom dia, comadre.
- Bom dia, compadre.
- Bom dia compadre.
- Bom dia, comadre.

A maneira que ela avançava rumo ao seu destino final, os cumprimentos se multiplicavam, e ela ficava cada vez mais radiante, mais orgulhosa, sentindo-se a mãe de todos os meninos, dos homens e mulheres de Itaporanga. Nem a chegada de médicos parteiros, especialistas que começaram a povoar a cidade já na década de 30, conseguiu abalar o prestigio de Maria.

Mas com a chegada dos novos tempos, com o advento do hospital, da maternidade, das cesarianas, dos partos feitos pela barriga, o prestigio de Mãe Burrego começou a declinar. No seu passeio diário pela Getulio Vargas já eram poucos os meninos que nasceram pelas suas mãos encontrados pelo caminho, e que lhe deviam benção e reverencia.

- Menino, cadê a benção de Mãe Burrego?

E o menino lhe virou as costas, sem urna palavra, sem um aceno. Ele havia nascido no hospital.

A partir daquele dia Maria de Burrego não foi mais a mesma. O seu reinado de mãe de todos estava chegando ao fim. Nos raros passeios que fazia pela cidade restava-lhe apenas o cumprimento dos compadres e comadres, que por serem tantos não lhe faltavam nunca.

Maria morreu num dia qualquer de uma semana que já não se sabe qual. O seu corpo esbelto e o seu andar cadente não povoam mais a memória da maioria dos seus conterrâneos.

- Bom dia compadre.
- Bom dia comadre.
- Bom dia comadre.
- Bom dia compadre.

Mãe Burrego foi a grande vencedora. Obteve 38,9% dos votos válidos ficando co 583 dos 1509 votos apurados.

                                                                                 Revista "O Itaporanguense do Século", junho de 2001

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