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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Biu de Dedé- Uma Sanfona... Uma Lenda.


Nosso conterrâneo, o renomado médico e escritor Tonho Fonsêca ou Tonho de Dazinha conta a história da vida de outro grande conterrâneo, o sanfoneiro Biu de Dédé. É um livro de facil e gostosa leitura que com a aquiescência do autor disponibilizamos  aqui no site para quem quiser baixar e ler sem custo algum.



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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

CAPÍTULO IX - Biu de Dedé


Se Fosse Gravar um CD...

Hoje o nosso grande sanfoneiro aposentou, praticamente, a sanfona só fazendo uso dela em dias e momentos bem especiais. 
Assim mesmo perguntei se tivesse oportunidade de gravar um CD que musicas gostaria que fossem paginadas nesta obra. Eis as suas respostas: 

Iª FAIXA - A primeira seria uma valsa que já ficou na história musical, chamada “Saudade de Ouro Preto”, gravada pela dupla Tonico e Tinoco, tendo como compositores: Antenógenes Silva e Alvarenga. 
Essa valsa me emociona muito, principalmente, quando toco para família porque no final todos cantam falando da terra. 
É emocionante, fala dos filhos ausentes e a saudade de sua terra. 
Eis a sua letra: 

Minha querida terra
De ti tenho saudade
És toda minha vida
Todo meu ser, minha vaidade.

Minha terra querida
Que me viu nascer
Debaixo deste céu
Feliz ei de morrer

Minha querida terra
De ti tenho saudade
És toda minha vida
Todo meu ser, minha vaidade.

Minha terra querida
Que me viu nascer
Debaixo deste céu
Feliz ei de morrer

2ª FAlXA - A segunda música é um xote muito gostoso de ser tocado e cantado, intitulado “Cenário de Amor”, da autoria de Petrucio Amorim e gravado por Flavio José e uma porção de bandas, incluindo Mastruz com Leite. A letra é assim: 

Nos braços de uma morena
Quase morro um belo dia,
Inda me lembro de meu cenário de amor,
Um lampião aceso.
O guarda roupa escancarado,
Vestidinho amassado debaixo de um batom,
Um copo de cerveja, uma viola na parede.
E uma rede convidando a balançar,
No cantinho da cama.
Um rádio a meio volume,
O cheiro de amor e de perfume pelo ar,
Numa esteira o meu sapato pisando o sapato dela,
Em cima da cadeira,
Aquela minha bela cela
Ao lado do meu velho alforje de caçador,
Que tentação,
Minha morena me beijando feito abelha, 
A lua malandrinha pela brechinha da telha,
Fotografando o meu cenário de amor

3ª FAIXA - A terceira música chamada “uspiro”é muito antiga; eu acho que só o Vando é que conhece e canta essa musica. (Enquanto Vando canta, todos estão rindo e falando sobre isso). Badu comenta: esta musica Suspiro eu acho que é de tio Vando; eu nunca ouvi ninguém cantar só ele. Já fiz de tudo na internet com cantores antigos e nunca encontrei nada. Olha a voz do homem como é bonita (todos rindo dizendo que a musica é de Wanduí, e que, de tanto cantá-la, as pessoas aprenderam-na). 

Suspiro

Suspiro que vai e vem
Suspiro que vai e vai
Suspiro tão doloridos
Que do meu peito sai

Suspiro que vai e vem
Razão deste meu viver
Suspiro que são saudades
Saudades que eu sinto meu bem querer

Vivo a suspirar, ai, ai!
Vivo a chorar, ai, ail
Vivo a esperar, ai, ai.
Ela me querer

Quando eu morrer, você vai ver
Minha alma vai padecer
Ela vai vagar
Pra depois vigiar você

4ª FAIXA - Eu homenagearia nesta faixa o grande compositor e acordeonista gaúcho Pedro Raymundo que compôs esta belissima música “Escadaria” e que revela, na realidade, quem é bom sanfoneiro, durante a sua execução. Ou toca ou se borra todo. 

5ª FAIXA – “Bicho Carpinteiro”, da autoria de Mario Zan e Ângelo Reali que foi gravado com solo de instrumentos diversos, por muitos artistas e gravado com o ritmo de chorinho e também de baião. 
Faz parte do repertorio do Clã Brasil 

6ª FAlXA – “Sem Ela” de Herivelto Martins (todos cantam a musica) 

Eu era tão diferente
Sem ela
E ela me apareceu de repente
Agora eu vivo com ela contente
Mas a minha mudança
Quem é que não sente
Quem é que não sente
Os amigos me aconselham
Manda essa mulher embora
Ela já soube
Coitadinho como chora
Sem eles não vivo bem
Sem ela muito pior
Mas, contudo
Viver pra ela é melhor

Uma homenagem bem especial ao Dedé. É um forró muito bonito composto pelo meu irmão João Dehon Fonseca que, além de engenheiro agrônomo, é também um excelente escritor, poeta e compositor. Este forró tem letra e música dele. Foi composto em 1990, mas, continua bem atualizado. 
Olha aí, Lucy Alves, esta homenagem para o seu avô e para os tios Biu e Vando. Aproveíte-a no próximo CD. 
A melodia é linda! 

Forró no Cantinho

Seu Dedé pegue seu fole,
Sei que o senhor não é mole,
Um forró vamos fazer;
Peço não venha sozinho,
Pois, forrá lá no Cantinho,
Vai até o amanhecer.
Convide o seu filho Riu,
Para sanfona tocar;
Contrate um bom zabumbeiro,
Vamos limpar o terreiro,
Nessa noite forrozar.
Forrozar, forrozar,
Nessa noite forrozar,
Forrozar. forrozar,
Nessa noite forrozar.

Seu Dedé, seu cabra macho,
Pegue os seus oito baixos,
Pro forrá já começar,
As moças “namoradeira”,
Estão na beira da fogueira,
Esperando prá dançar.
Convide, também, o Vando,
Pro pandeiro ele tocar,
Sei que vai dar muita gente,
Todo muito bem contente,
Vai dançar e forrozar,
Forrozar, forrozar,
Vai dançar e forrozar,
Forrozar, forrozar,
Vai dançar e forrozar.

A moçada do Cantinho,
Faz forrá bem direitinho,
Que até dá gosto ver;
Não tem briga, nem arruaça,
Pois, o cabra que ali caça
Companheiro não vai ter.
No Cantinho de ltaporanga,
Tem forró disciplinado,
Todo mundo animado,
Brinca até o sol raiar,
Brinca até o sol raiar
De forrozar e forrozar,
Brinca até o sol raiar
De forrozar e forrozar.

Do livro Biu de Dedé

Capítulo VIII - Biu de Dedé


Saudades – Sonhos – Costumes 

Se me perguntarem com quem eu gostaria de tocar, sem sombra de dúvidas, diria que seria com as minhas sobrinhas (Lucyane ­ Laryssa - Lizete), componentes do Clã Brasil. Com certeza, ficaria muito emocionado nos 20 primeiros minutos, depois me acostumaria e as acompanharia com muita facilidade. 

Tenho muita saudade dos meus filhos e mais saudade, ainda, dos netos que moram na capital. 
Como bom sertanejo, gosto muito de arroz com feijão, acompanhados de uma suculenta manga; esta era a nossa alimentação na roça. 
Não sei cozinhar; quando Josa viaja para ver os netos em João Pessoa, sofro muito. Sou cozinheiro nota zero. Nem Nescafé sei fazer. 
Sou flamenguista (fanático) e, se tivesse muito dinheiro, ajudaria a contratar jogadores para levantar a moral do time. 
Meu maior sonho (em parte já realizado) é continuar vendo a minha família sempre em harmonia e ajustada porque esta união é que incentiva a nossa busca para uma vida longa para servir de referencial para o mundo. 

Acho que cheguei à casa dos oitenta anos com todo este vigor e esta forma física por causa desta união que ampara a nossa alma. 
Amar e saber que é amado. Vale a pena! 

Todos nós temos aquelas pessoas que nos servem de exemplos e a quem admiramos por sua conduta certa dentro de uma sociedade. 

Cito como exemplo um rapaz que veio trabalhar comigo, já tendo uma idade um tanto avançada para estudar. 
Era arrimo de família, portanto, com maior dificuldade para pensar em estudos. O pai havia morrido muito novo, com 30 anos de idade e ele veio trabalhar comigo no auge em que a agricultura mais precisava de mão-de-obra para o cultivo do algodão. 
Era um trabalho muito duro, no entanto, ele dava conta com muita responsabilidade e esforço. Um dia ele me falou: 
- Biu, quero trabalhar e estudar. 
Admirado, olhei para ele e aprovei falando: 
- Está bem! Faça a sua matrícula, trabalhe durante o dia e assista aula à noite. 
Ele sustentava uma família de quatro irmãos e, muitas vezes, perdia a primeira aula porque o trabalho na enxada é muito duro e pesado. 
Eu trabalhava no meio do algodoal com um boi puxando a terra, mas, no pé do algodoeiro teria que ser com enxada. Não havia outra opção. 
Ele e o irmão eram muito bons de serviço e ele era o meu primeiro trabalhador. 
A agricultura é abençoada por Deus, todavia, é difícil viver exclusivamente dela. No final do ano, o que tinha sobrado e amealhado para ele? Nada! 
Como havia passado de ano, o grau de estudos aumentou e teria de assistir aulas, também, à tarde. Teria, apenas, o turno manhã para trabalhar. Tomou uma decisão drástica. 
- Biu, vou ter que parar de estudar porque só terei metade do dia para trabalhar e isto não vai dar para sustentar a minha família. 
Então, eu decidi: 
- Você vai trabalhar meio-dia e estudar à tarde. Preocupado retrucou: 
- E como irei lhe pagar no final do ano? Falei para ele que Deus é bom e iria dar um jeito nisto tudo... Ele acatou a minha ideia e passou a me respeitar como se eu fosse o seu pai. Continuou trabalhando e estudando até que surgiu uma oportunidade de entrar no comércio e eu lhe dei uma mão. Dei crédito. 
Trabalhava e estudava durante a semana e no sábado lidava com o seu comércio. . 
Foi indo, caminhou pelos caminhos amargos da vida, mas, venceu. 
Bacharelou-se em Direito e hoje é um dos advogados renomados do Vale do Piancó. Eu tenho a mesma alegria de um pai com esta grande vitória. Foi vereador por três mandatos seguidos e chama­se Dr. José Valeriano. Morou comigo durante 14 anos e só deixou de morar quando, realmente, não precisava mais. 
Hoje, quando ele me encontra, diz, em tom de brincadeira: 
- Biu, eu estou muito gordo, mas, se você me escalar num sábado ou num feriado, ainda cavo uns buracos para você. (risos). 
Portanto, esta é uma história que muito me marcou, é uma estória muito bonita que serve de exemplo para aqueles acomodados que dizem não poder estudar . 

Um fato engraçado que me ocorreu e de como me safei dele sem grandes vexames. 

Sempre tive facilidade de convencer, principalmente com as mulheres e gostava mais de namorar do que de tocar. 
Um dia, na festa da padroeira Nossa Senhora da Conceição, dia 8 de dezembro, estava na procissão pelas ruas da cidade com um amigo e avistei uma moça bonita acompanhando o andor da santa. 
Na época, o que mais rolava era o flerte, a troca de olhar até o cara ser encorajado a se aproximar. 
A moça simpatizou com o amigo que estava ao meu lado e sorriu para ele. 
Eu, paquerador incorrigível, já pensei que era para mim aquele sorriso arrebatador e comecei a maquinar como se livrar do amigo e, depois da procissão, partir para o ataque. 
Chegando à igreja, o padre deu a bênção final e deu por encerrado o ofício religioso daquele dia. Como eu sabia onde ela morava, desconversei do amigo e me dirigi para a casa dela para investir em mais um namoro que seria enrolação. 
Na minha teoria, como era meio feioso, tinha que aproveitar a oportunidade surgida. (risos). Em chegando lá, ela já foi perguntando: 
- O seu amigo não veio? 
Caí na real. O sorriso não era para mim e mais que depressa respondi: 
- Eu só vim dizer que ele não pode vir e que virá em outra oportunidade. 
Dei meia volta e sumi. 

O lugar onde mais toquei foi em São Francisco de Aguiar. 

Lembro-me que fomos tocar em um lugar que era um salão grande, talvez um depósito de cereais e era um galpão enorme com uma porta somente. Os tocadores ficavam lá nos fundos para sobrar mais espaço para se dançar. Apareceu um cara embriagado, de má índole que ninguém conhecia e puxou uma peixeira causando um acidente em si próprio cortando um dos dedos e' veio, sangrando, em nossa direção. 
As pessoas corriam querendo sair pela única porta provocando alarido, gritos e quedas e o cara se aproximando. 
Chegou perto de mim e começou a passar a ponta da faca no teclado da sanfona, sujando-a de sangue e dizendo: 
-Está com medo, Biu? 
Eu respondia: 
- Não, cara, você é meu amigo! 
Neste momento, chegou alguém, aberturou o cara, dominou-o e tomou a peixeira. Derrubou-o no chão (ele era um tanto franzino) e o amarrou. Depois que os ânimos serenaram, perguntaram para o arruaceiro: 
- Prefere dançar ou ficar a festa inteira amarrado olhando os outros dançarem? 
A estas alturas, o cara já tinha ficado bom da bebedeira porque medo é um santo remédio para curar uma fogueira e respondeu depressa e mansamente: 
- Quero dançar! 
Então pague a cota e não se meta mais a besta, entendeu? Cabra brabo aqui vai para peia! 
É claro que o cara entendeu porque dançou a noite inteira e não deu mais nem um pio . 

Naquele tempo, não havia ensaio das bandas; era só chegar e tocar. Havia sempre alguém que dizia: 

- Seu Biu, me deixa tocar um pandeirinho! 
Vando deixava (acho que até de propósito para me gozar) porque era eu quem pagaria o pato acompanhando um cara completamente sem ritmo e cantando desafinado. 
Houve até uma festa em que vieram dois pedindo para cantar e um cantava uma música e outro cantava outra música. Era um calvário. Eu me senti Jesus na cruz no meio daqueles dois. Hoje só aceito alguém cantar se for da família porque família é família e fica mais fácil de tomar o microfone . 

No caminho para o Cantinho havia um pé de cajá que diziam ser assombrado. 

Eu era tão viciado em namorar que não media esforços e ia cedo para a rua namorar e sempre me esquecia de que teria que voltar sozinho, quase à meia noite e passar por aquela cajazeira. Passava com medo, arrepiado até as penas do anjo da guarda, mas, iria repetir o feito. Tempo bom. Não volta mais . 

Em toda a minha vida tive cuidado com a alimentação, sendo bastante regrado, sem extravagância. Apesar de trabalhar no pesado com o intuito de poder criar os meus irmãos e constituir a minha própria família, sempre fui muito feliz. 

Nunca houve nada de mais especial que me fizesse mais feliz do que estas duas metas. Tudo o que sonhei e quis, trabalhei intensamente e o consegui. A minha esposa, Joza, diz que só faço o que eu gosto e é verdade; não vou atrás de algo que não preciso e que não é o meu sonho. A felicidade é muito simples e fácil de ser encontrada. Com isto conquistei conceito e respeito. 
Nota do Autor - Fiquei emocionado porque Biu poderia ter citado um personagem como o papa, um grande político, mas, preferiu, contar esta linda estória de um lavrador humilde que venceu a dor e o desencanto e brilhou na vida. Minha emoção foi dupla porque Dr. Valeriano é meu parente e eu desconhecia esta façanha dele. 
- Parabéns, meu primo! 

Do livro Biu de Dedé

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

CAPÍTULO VII - Biu de Dedé


Opiniões Sobre a Atualidade

Nunca teve tempo para assistir filmes, não sendo um admirador de cinema. 
É católico de nascimento, contudo, não se acha tão convicto como deveria ser. Não se diz cem por cento fervoroso. 
A sua opinião sobre a Juventude moderna revela que ela precisa reformular os padrões de comportamento não compatíveis com o relacionamento familiar. 
Os pais, por sua vez, deveriam ter mais cuidados na orientação e preparação da criançada porque é cedo que se começa a burilar aqueles que serão os futuros dirigentes da sociedade, da política e da condução da nação. 
Comenta, amargurado, que há excessos e permissividade prejudicando os jovens que não estão sabendo interpretar a vida, confundindo liberdade com licenciosidade. 
Deveria haver mais respeito aos mais idosos, onde as suas palavras deveriam ser mais ouvidas e respeitadas. 
O grande erro está na falta do amor porque na sua ausência não há obediência e sem obediência e disciplina não há progresso. 
Quanto mais educação menor o risco de desvios comportamentais. 
Cita, como exemplo, uma sobrinha que preferiu deixar o emprego e cuidar da educação e orientação dos filhos do que pagar a outrem para fazê-la sem tanto empenho, sem muito esmero. 
Faz uma crítica pesada aos dirigentes governamentais que não percebem ser a educação o caminho único, a via de uma só mão, para a formação de pessoas de valores morais e intelectuais elevados. 
Não há investimentos proporcionais a esta necessidade. Quando se prepara, de forma excelente, uma criança ter-se-á um bom adulto. 
Quanto mais se regar uma planta maior será o seu tamanho e melhores os seus frutos. No entanto, hoje se apregoa que a criança não pode sofrer reprimendas mesmo estando errada. Não pode ser reprovada na escola mesmo que não saiba de nada. 
Corre-se o grande risco de se ter muitos titulados analfabetos ou, pelo menos, incompetentes.

Do livro Biu de Dedé

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

CAPÍTULO VI - Biu de Dedé


Preferências de Composições e Autores

Fundou uma banda com diversos amigos onde estavam Vilson (violão), Zito (saxofone), Costa (trombone de vara), Tico de Olegário (bateria), Centinho (pandeiro) e Pedro Mouco (caracaxã). Compôs um chorinho chamado “Revendo os amigos”. Não compôs mais porque se declara limitado em seu conhecimento de partituras uma vez que tocava sempre de ouvido e isto já era suficiente para ir ganhando o seu dinheiro e fazendo o pé-de-meia. 
Revela que foi instado para compor o chorinho e o fez de uma maneira um tanto engraçada; “quando Zé Badu lançou o CD Filhos de Itaporanga, ele me disse: 
- tio Biu, eu queria um chorinho seu para gravar no CD.” 
Prometi que iria avaliar esta possibilidade; na época eu já estava deixando a profissão, então, fiz duas partes, mas Zé Badu insistiu: 
- Faça mais uma. 
Fiz e viemos para o Recife; na época, era lá que acontecia a gravação. Eu estava com medo de não dar conta do recado porque o chorinho, em si, é difícil, e ainda havia o nervosismo e o medo de decepcionar, porém, tive a felicidade de gravar. 
Badu voltou à carga: 
- Tio, você não quer gravar um pouco mais lento e eu, com medo de não saber gravar de novo (risos) respondi: 
- Não, tá bom! Este já está pronto. 
Graças a Deus imortalizei esta música e hoje ela está ensaiada e tocada por minha sobrinha Lucy Alves, filha de Zé Badu; estou muito feliz por ter uma substituta com muito mais técnica do que eu. 
Tem como ídolo maior, no acordeão, o itabaianense Sivuca cuja execução instrumental acha perfeita sem contar com as composições fantásticas feitas e tocadas por este artista maravilhoso. 
Refere-se a Dominguinhos com muito carinho, principalmente, pelo casamento que faz da própria voz com o instrumento. 
Luiz Gonzaga é o seu referencial maior por todo acervo musical que legou para o Brasil e que se encontra atualizado até hoje.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Capitulo V - Biu de Dedé


No dia 28 de julho de 1976 eles se casaram; a lua-de-mel foi em Itaporanga. 
Para imitar os contos de fada poder-se-ia dizer: 
E FORAM FELIZES PARA SEMPRE! 
Todavia, isto ainda não pode ser dito por que eles não foram felizes. Eles são felizes e têm um sólido casamento, baseado no amor, no respeito mútuo e na criação de uma família bonita composta de três filhos: um homem e duas mulheres. 
O filho, Juninho, fez vestibular e começou a estudar agronomia. 
O pai sempre dizia que já estava ficando velho e quando o filho terminasse os estudos tomaria a direção das terras. 
Frequentou o curso por um semestre e propôs ao pai: 
- Paínho, por que irei passar cinco anos estudando o que não vou dar prosseguimento? Acho melhor parar agora e já começar a produzir; estarei usufruindo de sua presença e já começarei a fazer o meu pé-de-meia para despesas futuras. 
Biu concordou; como tinha uma olaria manual, entregou-a ao Junior que montou uma cerâmica na estrada que vai para Boa Ventura. 
Houve um acerto na escolha e o garoto teve sucesso, porém, aos 21 anos de idade foi detectada uma insuficiência renal bilateral havendo feito hemodiálise por longos sete anos até a efetuação do transplante renal. 
Tudo correu às mil maravilhas e hoje o Juninho está bem e é aquele que administra todos os negócios. 
Acabou o susto e o sofrimento, graças a Deus. 
Uma das filhas terminou os cursos de enfermagem alto padrão e bioquímica e a outra é bacharela em direito. 
A grande preocupação de Biu era constituir família aos 45 anos e não ter a oportunidade de vê-los formados, porém hoje, aos 84 anos além de ver realizado este sonho ainda tem a alegria de ver os netos e curtir esta família maravilhosa que constituiu. 
Os filhos são Severino Araújo Jr, o Juninho, Cristiane Fernandes de Araújo, enfermeira e bioquímica Cálida Geisa Fernandes de Araújo, Cacá, a advogada. 
Quando estive em João Pessoa entrevistei a Dra. Cacá, que foi analista do Ministério Público e hoje tem uma chefia de Direitos Humanos. Pedi que, pela ausência dos outros dois irmãos, ela os representasse e falasse em nome de todos. Ela disse textualmente: 
- Eu não sei como definir painho porque ele é tudo; é uma referência de vida como homem, como pai, como amigo. Sabe conversar uma conversa boa, plena, sem limites. Nunca bateu em um filho. 
Quando um de nós fazia uma arte ele procurava conversar e mostrar o erro; meu Deus, a lição dada era pior do que três surras! 
Certa vez, quando morávamos na Rua Marquês de Herval, havia um pé de carambola na casa vizinha (de Irineu Jr e Telma Crisanto) e os galhos pendiam para o nosso quintal com muitas carambolas pedindo para serem comidas. O meu pai não nos deixava apanhá­las porque não nos pertencia. Hoje, como advogada, sei que o aquilo que cai para cá pertence a este aqui, mas, agora não dá mais para voltar à infância e argumentar com ele, contudo, a lição de honestidade é a riqueza que ficou em nossas cabeças. 
A paciência dele é ilimitada. Uma vez estávamos comemorando alguma data e estavam presentes Divaldo da tecelagem, Adriano, meu marido (neto de Arizim e filho de Bianca), meu sogro e alguns parentes; todos já tinham bebido muito e o sentido de ritmo e entoação musical já tinham desaparecido da cabeça do pessoal. Painho pegou a sanfona e, pacientemente, começou a acompanhar, porém, cada um queria cantar a sua música ao mesmo tempo e cada um cantava mais alto do que o outro; então, eu disse: - Painho, está difícil de acompanha-los e ele respondeu: - “com paciência a gente chega lá!” 
Quando começávamos a discutir sobre alguém, ele nos dizia: “se você não tem nada a dizer de bem sobre esta pessoa não diga nada para ofender; fique calada!” 
A regra da casa era só namorar depois dos 15 anos e eu contrariei a regra. Arranjei uma paquera aos 14 anos e meio e fiquei mortificada de como contaria para o meu pai; contei para mamãe que ficou muito brava dizendo que eu tinha desrespeitado a regra e que deveria contar para papai. Não sei o que me levou a beijar o garoto e depois contar. Ele disse: “é assim mesmo, minha filha, o mundo já está mais moderno, não faz tanta diferença assim; mas faz o seguinte: diga ao rapaz para esperar mais seis meses até você completar quinze anos para continuar este beijo”. Deu vontade de rir, porém foi contar para o rapaz e o namoro desandou, mas, não perdi grande coisa.  
Ele sempre venceu com mansidão e sabedoria. 
Nunca foi ambicioso, egoísta ou vaidoso. Procurou sempre ajudar os outros. Também está sempre atualizado, basta analisar esta máxima dele; “A juventude de hoje é bem diferente; no meu tempo a gente opinava no namoro das irmãs e das filhas, porém, como tudo evoluiu e é mais independente, procuro não dá conselho nesse assunto e não dizer nada porque não serei contrariado já que, certamente, não vou ser obedecido.” 
Junior conta um fato interessante acontecido quando estudava em João Pessoa. 
Biu foi fazer uma visita habitual aos filhos que estudavam na Capital; nesta ocasião estava havendo uma exposição de gado bovino e lá se foram eles vê-la. 
Havia um bezerro da raça nelore que chamava bem a atenção das pessoas pela sua morfologia diferenciada; era realmente um animal muito bonito; de uma compleição mais forte e um porte mais nobre. 
Painho se entusiasmou com o animal, principalmente, porque ele se aproximou mansamente como que dizendo: vai me levar? 
Painho manifestou o desejo de comprá-lo, mas, ponderou que aquele não seria o momento financeiro adequado. No meu íntimo, gostaria de ter podido comprar e presenteá-lo, todavia, eu era ainda estudante e não tinha como sonhar tal alto. 
O tempo passou. 
Comecei a trabalhar e, em determinada época, por volta de 2001, fui a uma exposição em Campina Grande e me lembrei daquele fato em que vi nos olhos de meu pai a vontade de comprar aquele animal e, pelas despesas para custear os nossos estudos, ele deixou um sonho morrer. 
Era, agora, a minha vez de recompensá-lo de tamanho sacrifício. 
Procurei um garrote com as mesmas características, que fosse tão forte e bonito como aquele de outrora e o encontrei. 
Não perguntei preço, o meu pai sempre mereceu o melhor e mais alguma coisa. 
Levei o animal para Itaporanga e o escondi na fazenda Malhada 
Grande do Tio Vando para fazer uma surpresa de aniversário. Foi um trabalho insano que este garrote deu e que agradeço a paciência e boa vontade de Tio Vando que o abrigou por todo este tempo. 
No dia do aniversário, enquanto as pessoas cantavam parabéns no interior da casa, eu organizava o traslado deste garrote em completo segredo e o deixei amarrado em frente à casa. 
Quando Painho saiu para o terraço e se deparou com o animal viajou no tempo e entendeu todo o esforço empregado para que ele o tivesse em seu curral. 
Era uma surpresa como se fosse aquele garrote anterior. Foi uma das maiores emoções que vi no meu pai. 
Era um garrote que tinha registro e nome, porém, ficou conhecido com o nome de Segredo; tomou-se um belo touro e deixou uma excelente produção e, principalmente, grandes recordações.

Do livro Biu de Dedé

sábado, 14 de fevereiro de 2015

ITAPORANGA DE OUTRORA


Dr.Antonio Soares da Fonseca Jr

-- Temos um novo vigário, temos um novo pároco!!!
A notícia se espalhou como um rastilho e a explosão subseqüente. 
-- Que historia é essa??
-- É, sim, temos um novo vigário. Chama-se Pe. José Sinfrônio de Assis Filho.
Foi o efeito de um petardo. O povo ainda não havia se refeito da perda de Monsenhor Manoel Firmino que morrera as vésperas de São João do ano de 1954.
Assumira, temporariamente, o cargo seu co-adjuntor Padre Gualberto, para quem os itaporangenses haviam transferido as suas esperanças e carinho.
Padre Gualberto tinha as características de um apascentador. Homem ponderado, bondoso, riso largo em um rosto arredondado e uma calvície já fazendo estréia em uma testa que ficou mais alargada.
A sensação de orfandade com a perda de Padre Firmino foi tendo um lenitivo com este co-adjutor que, de uma forma bem carismática, foi arrebanhando as suas ovelhas para um redil transitório mas seguro.
Era quase meio do ano de 1955 quando a notícia de um novo pároco explodiu naquela Itaporanga.
As pessoas, em menos de um ano, se sentiram novamente abaladas, órfãs, traídas, já que o apego ao Padre Gualberto tomara foros de uma administração paroquial longa e definitiva com a sua pessoa.
O inconformismo levou as autoridades civis e representantes populares a formar uma comissão para ir até Cajazeiras pedir ao bispo que deixasse o carismático e sorridente Gualberto na pequena freguesia de Itaporanga.
Não se conseguiu o resultado ansiado e o Padre Sinfrônio ficou. Ficou e começou a chacoalhar a pequena cidade com a fundação da Escola Paroquial São Domingos Sávio, com a formação de um salão onde se jogava ping-pong e pebolim, até então desconhecidos na cidade. Era uma maneira de atrair crianças maiores e adolescentes e através delas os seus pais. Que excelente estratégia de conquista! Fundou a Cruzada Eucarística Infantil, a “Schola Cantorum” (o coral sacro da igreja) e a equipe de catequese que, distribuída de forma racional e bem estratégica, ia a todos os bairros periféricos buscar a meninada no domingo à tarde para missa das crianças às 17 h.
O novo vigário era sério, porém feérico e muito irrequieto. Estrategicamente, mexeu com todas as camadas de Itaporanga: crianças, adolescentes, homens e mulheres adultos e casados. Faltava apenas um ultimo segmento desta sociedade que era composta de rapazes e moças, camada formada por adultos jovens solteiros.
Mais uma vez entra em cena o “crânio” do padre novo.
Na mesma época da vinda de Padre Sinfrônio, que agora já era chamado intima e carinhosamente de Padre Zé, apareceu um outro homem, novo, calado mas igualmente sonhador, com uma inteligência descomunal, um cabedal de cultura como poucos que conheci – chamava-se Fernão Dias.
O respeito mútuo e tácito foi silenciosamente acontecido entre os dois. Poder-se-ia até dizer que eram dois mosqueteiros, dois espadachins com atitudes diferentes para uma mesma finalidade: ativar o sistema nervoso central de Itaporanga para que a cidade aumentasse o seu buliço e congregasse todos numa mesma direção.
Fundaram o teatro de Itaporanga, uma entidade virtual com empreendimentos reais. 
Fernão Dias era uma espécie de conselheiro, ouvidor, ombudsman ou até o grilo falante das historias infantis, sem o qual o Padre Zé não empreendia suas investidas arrojadas.
Até nos planos de reforma da nova igreja – que é hoje a Igreja Nova – os dois mosqueteiros juntaram os seus neurônios para o resultado tão bonito que hoje é o nosso orgulho arquitetônico.
Aproximava-se o dia sete de setembro, dia de glória para a Pátria, mas um dia de gala para Itaporanga.
Eu era muito criança, entre oito e nove anos de idade, mas com uma lembrança muito viva e recente da época das festividades civis, em que o dedo de Padre Zé mexia na panelinha.
Os dias que antecediam o dia da Independência, eram dias de correria, de ansiedade e de alvoroço na cidade. Tudo e todos participavam. O comércio aumentava as suas vendas com adereços para roupas, carros alegóricos e embelezamento da cidade. Era um rebuliço saudável e benfazejo, onde a concorrência partidária obrigava cada um a dar o melhor de si com o fito de fazer mais bonito e mais certo.
O dia 06 de setembro era o dia em que a cidade “pegava fogo” com os preparativos iminentes. No dia 07, às cinco horas da manhã, a difusora de Ananias acordava a cidade com valsas antigas, dobrados e machas militares.
Não dava vontade de sair da rede. Era gostoso ficar ouvindo a música tangida pela brisa matinal que chegava aos ouvidos com nitidez ou fugidamente, dependendo da velocidade do vento. A vontade era prolongar aquele momento mágico até o inimaginável.
A cidade, porém, tinha de acordar e o fazia de uma maneira bem efusiva, bem alegre, bem alvissareira. O sino da igreja tocava a chamada para a missa campal.
Era outro momento mágico. Ao sabor do frescor da manhã se juntavam na praça da igreja toda comunidade religiosa e o povo em geral.
Todos, com sua melhor roupa, devidamente lavada e engomada. Orgulhosamente, as pessoas ostentavam os símbolos de cada comunidade. As Filhas de Maria, as Terezianas, as Franciscanas e as do Sagrado Coração de Jesus, conhecidas como zeladoras. A Cruzadinha Infantil também presente, toda vestida de branco impecável com as queridas fitas, de um amarelo bem vivo, penduradas no peito esquerdo ou cruzadas no tórax, indo do ombro esquerdo ao quadril direito.
Cada escola ou colégio com suas respectivas fardas se fazia presente. As freiras carmelitas e as meninas do internato embelezavam mais ainda o cenário.
Todos alegres, felizes, risonhos e ansiosos, numa conversa baixinha, quase cochichada.
Quando Irineu, o sineiro, ou “Primo” como era mais conhecido, batia as três pancadas (também chamadas de minutos) se fazia um silêncio total.
O perfume gostoso e místico do incenso se volatizava com a fumaça do turíbulo, subindo para o alto, anunciando a presença sacerdotal.
Ouvia-se então o “Introibo ad altare Dei” e os coroinhas respondiam “Ad Deum qui laetificat juventutem meam”. Daí em diante, era tudo magia; até os nossos ouvidos não mais percebiam tanto a voz desafinada do Padre Zé entoando o canto gregoriano.
A voz angelical das moças do coral, sob a execução do maestro Valfredo de Souza, se elevava aos céus.
Tudo era divino e maravilhoso. Após a missa, acontecia o tão esperado desfile cívico.
Descendo a Av Getúlio Vargas (que naquele tempo não era arborizada) vinham marchando, em 1º lugar as alunas do Colégio Padre Diniz, vestidas de blusa com gola e apliques de marinheiro e saia plissada, de um azul escuro, chamado azul marinho. Era emocionante; mexiam os braços e pernas ao mesmo tempo, num sincronismo belíssimo, cantando uma música que o inexorável tempo tenta apagar de minha memória.
“Somos estudantes destemidas
desta gloriosa e ideal nação...”
Em seguida marchava o Grupo Escolar Semião Leal e, em último lugar, carinhosamente chamadas de “frasqueira”, as escolas particulares e entre elas, as famosas escolas de Mariquita e Dona Laura em que, nesta ultima, tive a honra de engatinhar os meus primeiros passos no aprendizado escolar. Obrigado Laura Araújo, minha eterna gratidão.
Esta era uma Itaporanga de outrora. Não sei se ela existe mais ou se o Padre Zé está levando-a para o céu. Eu só sei que ela permanece imorredoura em meu coração.
São Paulo, 01 de setembro de 2006.
Email: fonseca.sally@ig.com.br

CAPÍTULO IV - Biu de Dedé

Namoros


Flamenguista convicto, Biu gostava de tocar sanfona, porém,   tinha um esporte que sobrepujava os outros: adorava namorar. Não era difícil realizá-lo porque sempre teve a aparência de um rapaz educado, de fino trato e era, sobretudo, um bom sedutor. Nos termos de hoje, diríamos que era um excelente xavequeiro. Sabia, como ninguém, conquistar aquela que estava em sua mira e que não eram poucas, pois, como foi dito, era este o seu hobbie, o esporte ou a melhor diversão que gostava de praticar. 
Caiu na rede, era peixe. Teoria antiga que lhe caía muito bem era esta: tem duas pernas e não é escada e usa saia e não é padre nem escocês, deixa comigo que é comigo mesmo. Eita, Seu Biu! 
Nunca foi tímido para negócios e namoros; poder-se-ia até dizer que era enxerido. 
Teve a primeira namorada aos 13 anos, uma garota muito bonita com quem namorou oito meses e segundo ele “tive muita sorte em namorá-la porque, para o homem nascido no Cantinho, o que não lhe faltava era amor para dar a quem lhe desse confiança.”
Foi noivo de: uma prima que morava em São José de Caiana e só não casou porque pagou o pato pelos outros: a família dela, apesar do grau de parentesco, achava que, como o seu pai era muito namorador e farrista, ele iria sair à sua imagem e semelhança e mandaram a moça para Campina. Grande apagando um noivado de três anos. 
A família da noiva levou ao pé da letra o dito popular de que “filho de peixe, peixinho é” e não quiseram arriscar. 
Não sei quem, realmente, perdeu: a família, a noiva ou o sanfoneiro, mas, sei que a Josa ganhou. 
Teve alguns compromissos sérios com algumas moças da sociedade itaporanguense, compromissos estes que não passaram de seis meses porque usava sempre o argumento de quem tinha uma família para cuidar e não queria prejudicar ninguém. 
Um dia, os seus olhos se abriram para enxergar uma moçoila de 16 aninhos que morava na mesma rua. Ela andava sempre com a irmã Ana que era cinco anos mais velha. 
Biu, matreiro como sempre, pensou em qual das duas iria investir. 
Ponderou que não era bonito, mas, tinha certo traquejo de conversa e em quem iria jogar este palavreado todo. Pensou bem e achou que a mais nova, mais ingênua, cairia com mais facilidade no caminhão de areia que iria despejar em seu ouvido. 
Fez, primeiramente, amizade com ela. 
Era uma técnica de ataque infalível porque o resto dependeria do xaveco e isto era a sua especialidade. 
Procurava agradar a mocinha com cigarros, lembrançinhas e muita conversa (depois que casou pediu para ela parar de fumar) até que chegou o momento crucial. Percebeu que se a pedisse em namoro tomaria um belo fora, então, usou de uma técnica para estes casos. Com voz mansa, olhos nos olhos dela, olhar pidão, coração na mão, falou; 
- Josa, vou lhe fazer uma declaração e um pedido: estou apaixonado por você; não quero saber o que você sente por mim, mas, namore comigo três meses apenas. Se, depois destes noventa dias você não me quiser mais, juro que saio definitivamente de sua vida e não mais lhe darei trabalho. 
Eu, escritor, não estava lá, porém, conhecendo bem o personagem, posso até ver a cena em que ele dizia estas palavras segurando as suas mãos, os olhos quase marejando lágrimas, sabendo que seria quase impossível ela dizer não. 
O sanfoneiro era bom de teatro; ator de mão cheia. 
E Josa caiu! 
Biu não perdeu tempo e encheu todos os espaços no coração da mocinha e antes dos noventa dias foi ela quem tomou a iniciativa e disse que aceitava namorar definitivamente. 
Coitada da Josa! 
Biu tomou conta do pedaço; sabia que ela estava apaixonada e aprontava, as suas peripécias. 
Uma delas sempre acontecia quando Josa entrava em férias e ia para o sítio de seus pais, no Caiana. Biu, para não ficar só durante as férias, mandava um bilhete acabando o namoro. 
Analisando bem a manobra, embora não muito certa, mas, era uma maneira de não praticar a traição. Já que o namoro estava terminado não haveria impedimento para ter os seus namoricos. 
Outra técnica sagaz do nosso sanfoneiro. 
Quando as férias acabavam ele reatava o namoro. Todavia, tudo cansa. Biu comprou alianças para o noivado; Josa já estava com um pé atrás e não confiava tanto no namorado e, para tanto, nem deu ciência ao pai desta intenção de Biu. Guardou as alianças e esperou a ida dele até o sítio para o pedido formal da mão dela. 
Biu não compareceu. Josa, não deixou por menos; foi á cidade e entregou as alianças para ele. 
O homem não acreditou, aliás, como era seguro na conversa que dizia, jamais acreditaria que ela fosse capaz disto; mas, Josa foi firme e disse que não queria mais namorar e voltou para o sítio para chorar, sozinha, a sua solidão. 
Biu, por sua vez, também ficou desnorteado porque alguém o colocou no devido lugar. Enrolão é enrolão, então fique só! Foi o que ele ouviu. 
Ficou o restante das férias maquinando como reconquistar o coração de sua bem amada. Não precisou de muitas manobras porque Josa estava apaixonada e, sobretudo, saudosa. Só Deus sabe quantos baldes de lágrimas os seus olhos derramaram. 
Acabadas as férias, o sanfoneiro se achegou e derramou aquela ladainha de arrependimento que sabia fazer e, desta vez, de forma bem sincera porque sentiu de perto o gosto amargo da separação. 
Josa, amorosa, quis de novo. 
O coração de Biu quase que sai pela boca porque ele sabia que a namorada era determinada e poderia não querer mais motivos de sofrimento. 
Se pudesse externar o que lhe vinha à cabeça daria para ver fogos de artifícios multicoloridos espocando pelos céus e aquela música de sinos que só os anjos sabem tocar. 
Foi o rastilho para ele fazer uma reflexão mais séria de como seria a sua vida dali por diante. 
Estava, certo dia, em cima de um lajedo vendo o seu gado pastar e aproveitou a brisa do campo, o farfalhar das árvores e aquele silêncio da Natureza para medir e analisar o amor que Josa sentia por ele. Era à hora de valorizar o sentimento dela e deixar de brincar com as coisas de seu coração. 
Tinha feito uma promessa para si que só casaria quando todos os irmãos já o tivessem feito e estivessem donos de seus lares; todos estavam casados. 
Era a hora de arrumar a vida e deixar, paulatinamente, a boemia romântica que o seu coração insistia em continuar. 
Balanceou que era esta à hora até porque quando investia sobre uma solteira já recebia uma sentença; 
- Biu, não dá mais. Já conheço as tuas artimanhas para balançar os corações. Procura outra. 
O nosso Don Juan percebeu que era chegada a hora, porém, algo andava conspirando contra ele porque foi noivar seriamente e já foi pedindo um adiamento para a data do casamento. O pai da noiva, Seu Antônio, foi taxativo, já que o currículum de Biu era negativo e pediu para a filha entregar as alianças. 
O coração do noivo gelou. Os sonhos ruíram; o sorriso permanente de seus lábios desapareceu, ficou branco, lívido de surpresa não acreditando no que estava acontecendo. 
Aonde a sua sorte foi parar? - perguntou-se. 
Será que o seu anjo-da-guarda entrou de férias ou perdeu o plano. 
Então? Onde foram parar os santos para quem tanto rezava pedindo proteção? 
Caiu em si e percebeu que Romeus e Julietas existem de verdade. 
Que a dor da perda é maior do que supunha e que já fez alguém passar por este mesmo caminho. 
Começou tudo novamente. 
Passou a namorar Josa escondido do conhecimento do pai dela porque o amor era maior e teria que superar e reconquistar tudo e todos. 
Até o padre da cidade, José Sínfrônio, interveio, sem ser chamado, para opinar contra Biu. 
Josa conta este episódio com estas palavras: 
- Então um dia o Padre Zé mandou me chamar; ele era muito amigo do meu pai e eu estudava no ginásio. Fez uma reunião comigo na secretaria e disse: 
- Minha filha, o rapaz é bom, mas não sofra, não; ele não quer casar com ninguém, você é jovem bonita, vá estudar. 
Até o padre disse para eu não ficar com ele. 
Biu teve que mudar de tática porque com conselho de padre a coisa fica mais enrolada. A família da moça poderia até transferi-la para outra cidade; neste caso tudo estaria perdido. 
Adiantando-se contra tudo, ele, primeiramente, botou os banhos (proclamas) para correr e somente depois mandou avisar ao Seu Antônio. 
O sanfoneiro enaltece o seu trabalho de conquistador dizendo assim: 
- Meu trabalho de base como namorado durante os primeiros 90 dias foi muito bem feito (risos geral), foi muito importante. Eu tinha 45 anos e ela 21. Naquela época um rapaz da minha idade ou era viúvo ou rapaz velho, realista, que não queria se casar. 
Para mostrar a seriedade de sua intenção casamenteira mandou uma carta para o Seu Antônio que veio conversar com ele e disse: 
- Biu, você é um homem bom (ele tinha 45 anos), eu tinha dúvida se você cumpriria o compromisso, mas, você é um homem de bem. 
Vamos tocar este casamento para frente. 
Seu Antônio foi um dos meus maiores amigos; os meus cunhados gostam muito de mim e as cunhadas, nem se fala! 

Do livro Biu de Dedé

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