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domingo, 22 de fevereiro de 2015

CAPÍTULO X - Biu de Dedé


... E para Terminar

Severino Soares de Araújo atinge uma grande longevidade e chega lá com a consciência bem tranquila de que fez tudo aquilo que Deus determinou. 
Não se arrepende de nada e repetiria tudo ao pé da letra porque sempre procurou fazer o bem, fazer o certo, ser fiel aos princípios morais da sociedade e os princípios religiosos que a sua crença ditou. 
Contudo, mesmo que não estivesse convencido do que fala, os frutos estão aí presentes, demonstrando toda a veracidade da lisura de sua vida e de como trilhou os caminhos traçados pela Natureza. 
Que recompensa uma pessoa deseja mais do que aquela que demonstra a gratidão de todos em relação a si! 
Se ele tivesse o dom da invisibilidade, iria ficar mais feliz por ouvir o seu nome ser decantado como referencial de todas as qualidades boas que a vida tem. 
As pessoas costumam nos elogiar para os parentes e não para nós mesmos e, muitas vezes, estas honrarias não chegam aos nossos ouvidos e que poderiam servir de mais estímulos para a prática das virtudes e para dar um pequeno esfregão em nosso ego. 
Um pouco de vaidade é necessário. 
O que não faz bem é aquela vaidade exagerada feita, apenas, para tirar dos outros o elogio forçado. É a vaidade de dar com uma mão, mas, demonstrando para a outra mão aquilo que sendo feito. 
É a vaidade dos tolos que se contentam com algo pequeno e é tão decantada no Livro de Eclesiastes capo I vers. 2 que diz: Vaidade das vaidades; tudo é vaidade! 
Quando o bem é praticado enobrece a alma com o sentimento do dever cumprido. Se a meta atingida traz a felicidade para as pessoas, maior será a alegria de quem a executou. 
A gratidão também não deve ser manifestada através de palavras trombeteadas ao mundo, mas, de ações que demonstrem o carinho do reconhecimento. 
O nosso Biu é, hoje, o decano da família. 
Aquele que a representa e que responde por ela aonde chegar. 
Se algum de seus membros faz algo indevido, dentro da sociedade, está fazendo contra toda a família e contra o seu representante maior. 
Os membros desta família do Cantinho sabem disto e, por tal conhecimento, é que procuram servir de exemplo a todos, copiando a ação de seu grande representante, mostrando que a união é benfazeja e que ser grande, dentro da humildade, faz um bem imensurável. 
É gostoso para o escritor passar para as gerações vindouras um testemunho verdadeiro, sem as manobras da artificialidade e da ficção. 
É bom dizer que o personagem realmente existiu e existe, que é palpável a sua pessoa e a sua obra e que foi um enorme prazer conviver com ele, numa cidade tão pequena que aproxima as pessoas e as torna parentes entre si. 
Este livro imortaliza Severino Soares de Araújo e toda a sua obra, mas, imortaliza, também, toda a família que tem em seu seio pessoas tão fantásticas em um mundo tão conturbado. 
E a realidade, paradoxalmente, de tão verdadeira vira uma lenda. 
A lenda de uma pessoa. 
A lenda de uma sanfona. 
A lenda de um homem. 
A lenda de Biu de Dedé - uma sanfona, uma lenda. 

Do livro Biu de Dedé

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Biu de Dedé - Capitulo I

A Origem – A Infância – A Primeira Escola


Severino Soares de Araújo, filho de Manuel Severino de Araújo (Dedé) e Maria Soares de Araújo, nasceu no sítio Cantinho no dia 26 de outubro de 1930. 
O casal teve oito filhos sendo Severino, a quem chamaremos de Biu de Dedé, o primogênito. Em seguida vieram Vando, Lizete, Maria do Céu, João Neto (que morreu aos 13 anos de uma febre sem diagnóstico), Juraci, Francisco de Aquino e Maria das Graças. 
A família era modesta, com poucos recursos, tirando a sobrevivência da agricultura que praticavam em seu sítio com três hectares de terra e, apenas, um hectare agriculturável. 
Teve uma infância simples.
Aprendeu a lidar com a terra, assistido pelo pai. 
Aos 12 anos foi trabalhar para um tio chamado Roseno, casado com a Tia Sinhá, que moravam na Serra do Gato, seis quilômetros distantes do sítio. 
Lá havia uma pedra grande que formava uma caverna conhecida como fuma da onça. Na hora do almoço, buscavam abrigo do sol escaldante e se sentavam à sombra que a furna oferecia para descansar. 
Ouviu, várias vezes, o Tio Roseno dizer: 
- Biu, você é um menino-homem; é um menino com atitudes de gente grande. 
Era um elogio que o encorajava mais a ajudar o pai na criação dos irmãos. Palavras ditas na hora certa valem mais do que ações. 
Nunca teve tempo para brincar. Lembra-se de que ia a festas na cidade e, no retomo a casa, tirava os sapatos para economizar a sola. 
Lembra-se, também, que a primeira escola foi lá no sítio Cantinho, onde havia um grupo escolar para as crianças da região. Era bom em matemática e por isso, teve que buscar algo maior indo estudar na escola do Professor Lindolfo Ramalho, professor conceituado que ministrou aulas a quase toda a população antiga de Itaporanga. 
Faz, com nostalgia, um retrospecto até a infância dizendo: 
- Dedé, meu pai, tocava fole de oito baixos; era uma maneira de ganhar um dinheirinho a mais. Nos sábados ele tocava na rua e no final do dia eu passava para pegar o dinheiro apurado e ia para o comércio para fazer a feira e trazer à casa para o consumo da semana. 
Aos 14 anos percebeu o tamanho da família e a dificuldade para criá-la, sentindo a necessidade de ajudar o pai a realizar tal feito, juntamente com o irmão Vando. 
A saída para tal façanha seria aumentar a área agriculturável, ação que seria impossível na própria propriedade, devido à grande quantidade de morros, serrotes e pedregulhos no restante do sítio. 
Arrendaram terras vizinhas que pertenciam a Sinhozinho Farias, das quais hoje são os verdadeiros donos. 
O seu pai, Dedé, tocava fole de oito baixos sem jamais ter tido aulas de música. 
Era um autodidata. 
Isto ajudava a trazer dinheiro para casa porque era muito requisitado para tocar bailes nos sítios da municipalidade. Mesmo sendo criança, Biu o acompanhou muitas vezes e começou a se interessar pelo instrumento que mal cabia em seus pequenos braços. 
Dedé desconhecia a escala musical; por isso, não poderia ajudar muito dizendo o que era um dó ou um ré. 
Severino (Biu) teve que aprender também sozinho, tirando um som aqui, outro acolá, mas, como dom é dom e não se compra, os seus dedos logo se familiarizaram com o teclado e ele dominou o instrumento que deixou de ser grande para ele, impulsionando-o a buscar teclados maiores. 
Conta isso com as próprias palavras: 
- Eu aproveitava as horas vagas e pegava o fole de meu pai e ficava arrestando; como era criança e, apesar do instrumento ser baixinho, eu era franzino e ficava catando as notas nos botões de uma música que eu já tinha conhecimento, procurando as notinhas para ver se mais tarde eu as tocaria. Procurava as mais fáceis, pois, quando a gente não sabe tudo é difícil e eu, sem meu pai a me ensinar, pois, ele não sabia as notas musicais; tocava de ouvido. 
Sonhava ter um acordeão. 
Era um sonho inquieto e constante; sabia que o tempo estava passando e que as oportunidades desapareceriam. 
Explica assim este sonho: 
- Aprendi a tocar o fole de oito baixos; tocava em piqueniques e já tocava bem, mas, o meu grande sonho era comprar um acordeão, pois, naquele tempo quem tocava sanfona era um sucesso, era admirado pela sociedade, era coisa rara na época. Mas cadê o recurso? 
Sonhava em tocar aquela festa onde todos se deliciariam com a sua arte. 
Muitos amigos e conhecidos também conheciam esta desenvoltura com teclados maiores e prometiam que iriam ajudar; eram promessas feitas sob os eflúvios do álcool, porém, quando a bebedeira passava, eles se esqueciam da promessa e esta amnésia levava consigo os dourados sonhos do jovem Biu. 
Trabalhava com afinco na agricultura e os frutos foram surgindo. 
Houve um fato pitoresco na vida de Biu. Quando tinha 18 anos solicitou uma colocação com o Dr. Pitanga que arranjou este emprego, porém, longe de casa. Era no cariri paraibano, na cidade de Salgadinho onde havia a construção da ferrovia que ligava Patos a Campina Grande; e lá se foi o nosso parente juntamente com Valdomiro e Afonso padeiro, com a cabeça cheia de sonhos por uma vida melhor. 
Foram apresentados ao engenheiro responsável pela obra que os recebeu e os escalou para um trabalho grosseiro e pesado. Eles argumentaram que o Dr. Pitanga havia prometido um emprego mais leve, mais maneiro como apontadores ou fiscais, mas, o engenheiro foi peremptório e disse que seria pegar no pesado ou desistir; depois contemporizou e os colocou no serviço de topografia, deixando Afonso à disposição. 
Algum tempo não muito depois, o serviço de topografia foi acabando e eles tiveram que ir se adaptando ao serviço pesado como encher caminhões de areia e de cal e ganhando muito pouco. 
Tinha uma despesa de Cr$ 20,00 com o aluguel de uma casa para poder dormir e mais alguma despesa para alimentação. 
O dono da casa era um aproveitador e sabendo da necessidade dos três amigos, comprava somente 02 quilos de carne por semana que se acabavam logo, ficando a alimentação à base de arroz e feijão no almoço e arroz e caldo de feijão no jantar. Era uma alimentação nada substanciosa para quem trabalhava no pesado. Dormiam com a barriga reclamando e roncando e se enganando com garapa de açúcar. 
Trabalhou durante 8 meses nesta lida sofredora e, mesmo assim, conseguiu juntar algum dinheirinho para voltar ao torrão natal onde, com certeza, a necessidade seria menor e a dieta mais rica do que a da estrada de ferro para Campina. 
Com este dinheiro comprou um terno de linho branco, para chegar bonito em Itaporanga e mostrar que veio de fora; ao chegar a casa, a sua mãe tinha mandado fazer e ampliar um retrato dela com o marido para colocar na sala da frente e como estava sem dinheiro, quem teve que arcar com esta despesa foi Biu, com o resto de dinheiro que sobrara da compra do temo. 
Com as próprias palavras ele diz: 
“Fiquei liso; foi o saldo dos oito meses de trabalho pesado, mas valeu!” 
Aos 22 anos já tinha comprado três reses: duas vaquinhas e um garrote que saíram de seu suor lavrando o duro solo sob o impiedoso sol do sertão. 
Eram frutos suados, curtidos, mas, valorizados porque cada gota de suor derramada equivalia às espigas de milho ou os cachos de grão de arroz que a terra devolve como premiação. 
É o milagre da colheita quando a terra se torna generosa premiando aqueles que souberam cultivá-la no tempo e no momento devido. 
Mente aquele que diz ser o sertão um lugar ingrato. 
Mente aquele que o condena ou rejeita. 
Mente, também, classificá-lo como inóspito. 
O sertão precisa ser compreendido. Não pode ser comparado com ambientes que tem estações variadas. 
As suas estações são bem definidas e mal aproveitadas; porém, a cultura secular que mistura religião e ciência faz o homem ser conformista e, posteriormente, indolente, aceitando a situação climática como um desígnio divino. 
Dê-lhe condições e instrumentos condizentes para explorar o solo que o milagre surge de forma imediata, confirmando a informação de Pero Vaz de Caminha, enviada ao rei de Portugal “que aqui em se plantando tudo dá”. 
A carta não foi escrita no meio ambiental do sul ou do sudeste, mas, em pleno ambiente nordestino onde a exuberância é uma verdade se lhe fizerem exaltação.
Biu de Dedé com os seus irmãos provaram, sobejamente, esta assertiva quando fizeram o solo do Cantinho, devida e exaustivamente explorado, devolver-lhes aquilo que buscaram: a sobrevivência com conforto, mas, sobretudo com a dignidade que esta familia passou e passa para todos nós, desde os tempos de antanho. 
A coragem, devidamente balanceada, sempre leva ao sucesso. Não confundir, jamais, intempestividade com coragem. 
A coragem é um sentimento de segurança que se tem longe do medo e perto da certeza da vitória. É sempre usada após uma análise criteriosa do que se quer fazer, evitando os percalços e atropelos que, invariavelmente, conduzem a resultados não desejados. 
Já a intempestividade é a ação imediatista e impulsiva que é praticada sempre sem o critério do bom senso e da análise, conduzida pelo desejo de ver realizado, num átimo, aquilo que não se programou. 
A chance de êxito existe, mas, é mínima. A chance de acerto é parcial, incompleta. 
O desacerto, quase sempre, é a meta atingida e indesejada. Por impulsos, talvez hormonais, a impulsividade é quase uma característica da idade jovem ao passo que a análise, a medição, a paciência é uma situação inerente à idade mais avançada. 
Baseado neste pensamento é que se pode explicar porque o êxito, normalmente, só chega depois dos quarenta anos, porque a coragem também está muito atrelada à vivência dos fatos. 
Não significa dizer que não há jovens de sucesso e adultos desastrados, porém, a vitória só é feita após o amassamento do cimento que a impulsividade endurece com maior velocidade. 
O balanceamento mente-corpo tem os neuro-hormônios como equilibradores. 
Sabendo dosar há o êxito planejado. 
A característica familiar de Biu sempre foi a mesma para todos os irmãos: 
simplicidade, 
altivez, 
honestidade, 
admiração conquistada, 
distância da violência e da inimizade, 
personalidade serena 
referencial na sociedade. 

Esta é a riqueza maior do que a riqueza material, que o sertão lhes deu. 
O saber explorar a máxima de que “a união faz a força”. Jamais fraquejar diante das agruras e entender o sertão, não esperando que a fortuna caia dos céus. 
Se não houvesse esta objetividade, talvez, alguns tivessem debandado para o lado errado ,da vida, para os caminhos que não devem ser trilhados; o apoio mútuo e fraterno lhes ensinou que valeria a pena arriscarem. 
Valeu! 

- Vando e eu só fizemos até o 4° ano primário, mas, colocamos os outros para estudar e atingir aquilo que não era possível para nós dois. 
Os dois mais novos, De Aquino e Maria das Graças tiveram chances maiores e terminaram o curso superior, sendo ele médico anestesista e ela cirurgiã-dentista. 
Lembro que, certa vez, De Aquino percebeu que a situação não estava bem e sugeriu que iria parar de estudar para diminuir as despesas que estavam grandes. Eu, argumentei que não parasse, que o sonho dele tinha que ser realizado nem que preciso fosse vender as terras para isto. Com a sua entrada para o Exército a situação melhorou e tudo caminhou a contento. 
A valorização da família é um marco comum na vida destes dois irmãos que procuraram criá-la como um bloco bem sólido, havendo uma proteção mútua onde Biu foi “eleito” chefe, mentor, direcionador a tal ponto de prestarem muito respeito às palavras que saem de sua boca. 
As irmãs se sentiam protegidas e acatavam sua opinião a respeito de namoros e namorados. Se um rapaz não estava na graça de Biu, ele aconselhava que a irmã não devesse continuar algo que daria dor de cabeça mais tarde. A aceitação da opinião era plena porque sabiam que, jamais, ele tomaria uma conduta que não fosse melhor para os irmãos. 
Todos tinham uma obediência rígida às opiniões deste irmão mais velho que mantinha a famíliaa numa união perfeita. Nunca brigaram entre si, jamais discutiram, nem sequer um palavrão foi articulado contra o outro. 
O pai era um tanto acomodado e nunca se reuniu com os filhos para dizer o que estava certo ou errado; Biu agradece ao Pai Invisível, Deus, a sabedoria que recebeu para ser o condutor de uma família numerosa onde deveriam acontecer inúmeros problemas, no entanto, a bondade divina foi tanta que todos se uniram em torno de uma meta e adquiriram a admiração e o respeito de toda uma sociedade, de toda a cidade de Itaporanga. 
A felicidade é um bem coletivo 
A felicidade não existe e nem é alcançada porque, se assim o fosse, haveria um lugar determinado onde ela se encontraria e lá se iria comprá-la ou pegá-la. 
Ela está presente quando se tenta construí-la através de ações que levam, invariavelmente, ao sucesso. Ela não está onde há o insucesso, a incompetência, a desorganização e a indisciplina. Seria incoerência se pensar que o prejuízo provoque um estado de felicidade.
Ela é uma sensação plena de satisfação, de enlevo, de ascensão que dissolve a tristeza e o dissabor. É a sensação de que se atingiu o tudo, o píncaro, a meta programada ou, além disto. 
A felicidade feita através de dores, doenças ou perdas é um arrebatamento fanático de se sublimar as desgraças como motivo de crescimento espiritual ou religioso, deixando o lógico pela dogmatização do incerto. 
Não se pode confundir sensação de bem estar com felicidade. 
Um paciente, com muita dor, sente bem-estar após aplicação de analgésicos; não significa que ele está feliz. Está melhor. 
Poder-se-ia até afirmar que a felicidade é utópica, uma vez que ela não é perene. É momentânea ou passageira ou ocasional; dissipa-se com o primeiro dissabor, donde se conclui que quanto mais feliz maior a chance de melindres e: mais fugaz se torna ela. 
É um bem coletivo porque é uma obrigação se dar condições de vida com qualidade e com dignidade a todos os povos, independente de etnias, religião, crença e partidarismo. 
Felicidade individual é egoísmo, mas, sobretudo egocentrismo onde apenas um usufrui de algo que pertence a todos. 
Nenhum nível social ou cultural compra a felicidade, mas, ela pode ser construída a partir dos sonhos de cada um e do empenho em realizá-los. 
A felicidade é um contágio benfazejo que deveria estar sempre presente em forma de epidemia. 
Há pessoas que se sentem bem com a felicidade alheia e invejam, de forma sadia, este estado de plenitude; são os desprendidos que entendem que ela é plena e tê-la não significa dividi-la com outrem e ficar com uma menor porção. 
Há outras pessoas que se sentem mal e invejam, conscientemente, querendo este estado de forma exclusiva para si, sem ter feito o menor esforço para construí-lo, achando-se únicos merecedores e que os outros não têm este direito. 
Querem exclusividade.
São uns usurpadores que esperam tomar aquilo que foi construído com seriedade.
Tê-la não é renunciar a um pedaço dela para dar a outrem, não é se despir do que é seu para cobrir outro santo. 
Não se divide o indivisível. 
Se ela fosse ou estivesse em forma de epidemia, todos os seres humanos seriam donos do mesmo cabedal, sem fracioná-lo, mas, aumentando a força de algo que se agiganta ao ser somado com os demais. 
A felicidade pode ser construída a partir dos sonhos de cada um e do empenho em realizá-los. 
O sonho é um embrião de um projeto. 
Amadurece-se este sonho, tiram-se as arestas, medem-se os prováveis desacertos, divide-o, teoricamente, com outras pessoas, esperando-se críticas construtivas ou contrárias e, enfim., arma-se de coragem para realizá-lo envidando todos os esforços para o acontecimento desejado. 
Quanto maior o empenho, maior a rapidez de ter a felicidade para usufruto; quanto mais preguiçosa e demorada for a realização mais longe fica o prazer de possuí-la. 
A elasticidade dela varia de acordo com a multiplicidade do projeto. 
Sonho amplo, felicidade maior. 
Sonho pequeno, felicidade sem expressão. Portanto, cabe a cada um o tempo de tê-la para o próprio bem. 
Quanto mais ambicioso for o sonho, maior o projeto e maior a satisfação da construção. 
Realizar um sonho é perder uma ilusão, mas, ganhar uma certeza do bem realizado. 
Aprendi isto tudo com esta família maravilhosa da qual Biu e Vando são os representantes maiores. 

Do livro: Biu de Dedé

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Biu de Dedé - O livro de Antônio Fonseca


Dr. A:\TÓNIO SOARES DA FONSECA JR. nasceu em Itaporanga. Estado da Paraíba, havendo estudado nos Seminário Diocesano de Caicó-RN e Seminário Arquidiocesano de João Pessoa-PB. Ingressou na Faculdade de Medicina da UFPB e após a formatura foi para São Paulo-Capital pós-graduando-se em Cirurgia Vascular.


Apresentação

Para escrever este livro, fiz uma entrevista primeira com o personagem principal da obra e neste dia, na casa de Zé Badu, seu, sobrinho, estavam presentes os irmãos Vanduí (Vando), Maria do Céu, a sobrinha Lucy Alves (Clã Brasil), minha esposa Sa1ly fazendo a filmagem, Fatinha (Mª Fátima Lopes Pereira), cunhada de Badu e Josa Fernandes de Araújo, a esposa idolatrada por quem Biu é apaixonado e do qual ela diz ter o maior orgulho de ser a sua esposa. 

Comecei dizendo que existem dois tipos de imortalidade: 
  • A primeira é aquela que a medicina pesquisa, incessantemente, na busca da vida eterna e que não se sabe se virá ou quando chegará; 
  • a segunda é a imortalidade através do exemplo de vida, de conduta, de obras criadas, que marcam para sempre uma pessoa. 

Esta é possível. 

Ressaltei que o nosso Severino Soares de Araújo é merecedor deste tipo de imortalidade pelo que fez como homem, como músico, mas, também como chefe de família não somente do próprio lar como da casa de seu pai onde, com o irmão Vando, conseguiu ajudar a criar e encaminhar todos estes irmãos, alguns até o curso superior, com o sacrifício de si próprio. Não é à toa que são amados e respeitados por toda a família, 

Ensinaram aos irmãos a lição da serenidade, da honestidade, da simplicidade e de como serem pessoas dignas, sem muito florear, porém, transmitiram uma qualidade muito rica chamada mansidão que é a principal característica desta família que toda a Itaporanga admira e tem como referencial. 

Estou tendo esta honraria em escrever este livro presenteando o nosso querido conterrâneo e o faço em nome de todos os itaporanguenses que, tenho certeza, dão-me este aval de representá-los nesta homenagem tão justa. 

É gratificante ser reconhecido. É reconfortante ser homenageado. 

Todas as pessoas que deixaram algum legado para uma sociedade teriam que ter estes reconhecimentos, no intuito de incentivá-los e aos demais de mostrar sempre o caminho benfazejo da retidão. 

Quando tive a ideia de escrever “Uma sanfona, uma lenda” foi com o objetivo de eternizar àquele: que alegrou a vida de muitas pessoas por muitos anos e trouxe felicidade a dezenas destes casais que começaram o seu namoro ao som desta sanfona maviosa e culminaram em casamento e, consequentemente, filhos que fazem a alegria da casa e da sociedade. 

Se, naquela data, não houvesse aquela festa tocada por Biu de Dedé, muitas pessoas não teriam se encontrado desencadeando o namoro, noivado e casamento e, muitos jovens de hoje, não existiriam como consequência daquela afortunada festa. 

Isto é mais profundo do que se possa imaginar. 

Parabéns, Biu, por toda esta grandiosidade que não foi pensada ou dita anteriormente. 

Parabéns pela alegria que nos passou. 

Parabéns pelo que nos transmitiu com a simplicidade, seriedade, alegria e cumprimento de metas. 

Parabéns para Vando que o auxiliou nesta tarefa árdua, pesada, mas, gratificante de se sacrificar para que os irmãos tivessem oportunidades melhores, dividindo alegrias e tristezas. 

Itaporanga, agradecida, através das minhas mãos, escreve este diploma para eternizá-lo nos anais de nossa história. 
Biu de Dedé - uma sanfona, uma lenda. 

O AUTOR 

Agradecimentos


À minha esposa, Sally, 
que teve o enorme sacrifício de transcrever todo conteúdo do áudio da entrevista para o papel, facilitando, de uma maneira gigantesca, o meu trabalho. 

Aos meus filhos: 
Tony Wendell 
Yuri Patrick 
Henri Carlo 
Wendy Jovanka 
Yamma Mayura 
Marcela Tomelli 
que sempre vibram com os meus trabalhos em prosa e verso. 

Aos meus netos: 
Luna Mayura 
Hannah 
Pedro Henrique 
Aimée 
João 
Que me dão a doçura da infância. 

A Silvia Maria de Lacerda que criou esta belíssima capa. 


Homenagem especial

A Dedé que transmitiu a linhagem musical para os seus descendentes. 
Ao filho Biu 
Ao neto Zé Badu 
Às bisnetas Lucyane 
  Laryssa, e 
           Lisete 
Aos bisnetos Heitor, e 
          Femando 


A imortalidade, de acordo com a Medicina, é a condição de atingir a eterna longevidade e jamais morrer. 

A verdadeira imortalidade, no meu entender, consiste em projetar o nome, a imagem e a obra de alguém para os séculos futuros. O corpo vai; a obra fica. 

ANTÔNIO SOARES DA FONSECA JR 


Prefácio

Dentre as várias e destacadas características do Vale do Piancó evidencia-se a musicalidade de sua gente. 

É uma região de muitos talentos. E, em meio a tantos valores, o médico, poeta, escritor e especialmente pesquisador Antônio Soares da Fonseca Júnior foi pinçar exatamente Severino Alves, ou mais precisamente Biu de Dedé, para resgatar através de sua história e obra a verve musical do Vale que encanta a Paraíba.

E por que Biu de Dedé? 

Porque, talvez, a sua história seja a história de tantos outros nordestinos, que vencem pelo trabalho e pela perseverança. 

O nordestino é antes de tudo um forte no dizer de Euclides da Cunha. 

Biu mostrou, com seu exemplo de vida, quanto Euclides estava tão certo. E mais do que vencer as adversidades cotidianas, revelou, também, como é possível mitigar o sofrimento e a dureza da vida alegrando a sua gente com a doçura da música. 

Neste livro, está o almanaque de uma vida de nordestino. Do menino que mira o futuro portando a áspera ferramenta para cultivar a terra, mas, mantém os dedos suaves para extrair música de um fole de oito baixos. 

E de como um sonho faz o jovem vender seus poucos bens para adquirir sua primeira acordeon. 

E de como um boêmio emérito, namorador, passa a dominar os bailes com a sua sanfona e segue trabalhando contra as inclemências de um solo tão árido para sustentar a família e seguir sendo feliz. 

Esse livro é uma espécie de pequena saga do nordestino humilde que é obrigado a enfrentara vida, vencer as dificuldades, em meio a uma natureza de solo pobre, que sabe ser hostil em períodos de seca inclemente, mas, também pode ser generosa e, com as bênçãos das chuvas, fazer da semente uma esperança de dias melhores. 

Uma natureza que está prenhe dos acordes da música de uma gente, que sabe cantar suas dores, mas, também solfejar suas alegrias. 

João Pessoa, dez de 2014 

HÉLDER MOURA 
Jornalista e escritor 

Do livro: Biu de Dedé


sábado, 1 de novembro de 2014

HORA DA VERDADE


As eleições se foram. 

Um ganhou, outro perdeu e a vida continua; contudo, durante o pleito muitos amigos se machucaram, muitos irmãos se ofenderam, muitos parentes se agrediram. Tudo isto de uma forma apaixonada, sem medir as consequências daquilo que estavam dizendo. Esqueceram-se da consanguinidade ou da afetividade que os ligavam e foram avante numa briga recíproca, aprofundando-se cada vez no abismo da falta de senso ou responsabilidade naquilo que estavam proferindo. 

Aconteceram muitas rusgas. Muita superfície plana do bem querer foi arranhada e, agora que as eleições passaram, ficou um festival de insanidade e de inconsequências por um tiroteio verbal que não valeu à pena. 

Amizades foram jogadas fora por nada. Consanguinidade também. Como fica o daqui em diante? Muitos ofenderam sabendo que, depois, haveria o rotineiro “me desculpe” e o subsequente “não foi nada.”


Onde está a hombridade de segurar aquilo que proferiu?

De minha parte, eu pouco ofendi, mas, ofendi e não arredo um pé do que disse porque o disse com convicção. Não vou pedir desculpas e tenho que arcar com as consequências. Por outro lado fui ofendido e quem o fez deve arcar com as mesmas responsabilidades que a ofensa possui. 

Não me peçam desculpas. Se o que disseram foi com convicção e agora pedem desculpas, foi classificado por mim na tabela de amizade como um covarde. Não sustenta aquilo que diz. Se, porém, o que disseram foi sem convicção, com intenção pura e simples de ofender, é um perverso e nem sequer está na minha tabela de amizade. “Dê a face direita a quem lhe bateu na esquerda” é uma conversa de dois mil anos atrás e está obsoleta. 
Antonio Fonseca Jr.

sábado, 11 de outubro de 2014

DAZINHA FONSECA - UM EXEMPLO EDIFICANTE


Quem não conheceu esta figura extraordinária em forma de mulher!? 

Era uma mulher pequenina, franzina de uma fibra impressionante para dar inveja a qualquer pessoa de porte altivo.

Ficou viúva com 43 anos e sete filhos para criar. O esposo, Antônio Soares da Fonseca, mais conhecido como Totinha, morreu de um enfarte fulminante em um sábado do mês de julho de 1953, às 10 horas da noite. 

O mundo de Dona Dazinha desmoronou. 

Era a mais pobre das irmãs, mas, sonhava alto, juntamente com o marido, e sempre diziam para os filhos: 
- não temos posses nem riquezas; a riqueza que vamos lhes dar não pode ser roubada por ladrões nem comida por traças e cupins. Vamos lhes dar o estudo, a cultura que é aquilo que impulsiona as pessoas para frente e para cima. 

O sonho ficou abalado com a ausência do marido, porém, em alguns dias seguintes ao sepultamento de Seu Totinha, ela juntou os filhos e disse-lhes: 
-“de agora em diante eu sou “pãe” ou seja pai e mãe. Só quero ver vocês na rua para ir à escola ou à igreja. Quero todo mundo estudando e as brincadeiras só serão aproveitadas depois que a lição estiver feita. Se for preciso e se houver desobediência, vou castigar, mesmo com dor no meu coração”. 

Foto feita no dia que ela falou que seria “pãe” deste dia em diante – Julho de 1953 Francisco (Noly) – Teresa – Nemy – Dazinha – Edmilson – Jesus –Dehon - Tonho
Ganhava um salário mínimo como contínua (porteira) do Grupo Escolar Simeão Leal; nunca teve falta no trabalho. Trabalhava grávida até o dia da parição e, nos 03 dias subsequentes, mesmo tendo direito trabalhista, não se ausentava e o Seu Totinha ia fazer a sua função.

Passou dificuldades severas para acabar de criar e educar os filhos, contudo, cada um foi entendendo que este era o caminho e procuraram retribuir esta forma de pensar estudando com afinco e, quando arranjavam emprego, ajudavam a mãe a formar os outros irmãos. Nunca um de seus filhos ficou em segunda época ou recuperação. Todos passavam de ano com boas notas, com ótima escolaridade.

Foi estoica até o extremo; aguentou humilhações de pessoas da própria família que diziam ser o estudo um privilégio de ricos e que pobres deveriam pegar na enxada e ir plantar milho e arroz para a sobrevivência. Quanto mais ela ouvia estas frases negativas, mais se sentia impulsionada para subir a montanha da vitória mostrando que não existem montanhas intransponíveis, mas, falta de planejamento para a sua escalada.

Para o cumprimento desta escalada era necessário que sofresse estoicamente, passasse por grandes obstáculos e necessidades, sentisse o sabor salgado da lágrima da penúria e, altivamente, vencesse o dissabor. Não poderia recuar. Era vencer ou vencer.

Como armas, foram-lhe dadas a esperança e a fé.

Da primeira arma, ela usou todo o seu potencial demonstrando que um SONHO não é um mero sonho ou apenas utopia, mas, é realizável quando se tem a força inquebrantável dos heróis.

Da segunda arma, ela fez duplicação, multiplicação. Transformou cada pedacinho de fé em mil pedaços, jamais demonstrando desânimo durante a subida tão íngreme da montanha da glória.

Acreditou em si e apostou alto na vitória.

Nas madrugadas silenciosas e solitárias, chorou o desespero e o medo de não alcançar o objetivo, mas, quando a alvorada chegou, ela espantou o fantasma da insegurança e se encheu de novo ânimo e de uma força descomunal que não se sabe como pode caber em um corpo tão pequeno e frágil.

Encheu os olhos do brilho da esperança e usou uma fé enorme na realização da meta. 

Venceu. Venceu uma, duas e várias vezes até transbordar a taça do dever cumprido.

Todos os sete filhos se formaram, alguns até com uma ou mais formaturas: são dois médicos, um dos quais também é psicanalista; outro foi padre e, posteriormente, mestrado em educação; um outro é engenheiro civil e também engenheiro sanitarista; tem um que, além de engenheiro agrônomo, é bacharel em  direito e formado em geografia. Tem também um bacharel em Ciência da Computação e uma mestra em pedagogia.

Em pé – da esquerda para a direita: Edmilson (engenheiro civil e sanitarista, Secretário de Estado várias vezes) – Nemy (padre, teólogo, filófo e mestrado em pedagogia), Dona Dazinha, grande mãe, grande mulher – Francisco (Noly), médico e professor. Sentados – João Dehon. Engenheiro agrônomo, geógrafo e bacharelando em direito – Antonio (Tonho Fonseca), médico, psicanalista, jornalista e diplomata – Teresa Neumann mestra em pedagogia – Jesus (bacharel em Ciência da Computação).

Este exemplo de uma extrema força de vontade serviu de exemplo a toda a cidade de Itaporanga fazendo com que muitos chefes de família copiassem o modelo, impulsionando os filhos para o estudo. Havia uma frase corrente na época, décadas de 1950 e 1960, que se dizia: 
- filho, faça como os filhos de Dazinha, vá estudar!  

Este é, pois, um exemplo edificante a ser copiado e aplaudido. 

O exemplo de Maria de Sousa Fonseca - Dona Dazinha – que morreu aos 95 anos com a consciência tranquila de que cumpriu muito bem o seu papel na Terra.

Era filha de Major Abdon Leite da Costa Guimarães.

Antonio Fonseca Jr.


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