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José Brunet Ramalho

Primeiro Prefeito de Misericórdia.

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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

O DESBRAVADOR

Por jesus soares da fonseca  em 20/09/2006 

Lendo as diversas crônicas, aqui, postas, foram despertadas em mim emoções várias, como tristeza, recordação, saudade, alegria, agradecimento, deslumbramento ou um misto disso tudo e concluo que só um Ser Diferenciado é capaz de mover toda esta gama de sentimento. José Sinfrônio de Assis é este Ser! 

Antônio Fonseca foi longe e fundo, mostrando, neste espaço de tempo de 51 anos entre a chegada de Padre Zé a Itaporanga e sua partida ao encontro de Deus, uma vida de abnegação e sacrifícios de um Sacerdote em prol de uma Comunidade que sequer, era a sua de origem.

Os filhos de Itaporanga ficam meio atabalhoados, não sabem se choram de saudade ou de agradecimento! Não sabem se riem de contentamento por sua chegada à Mansão Divina ou se rejubilando pela herança deixada.

Carlinho Ferreira com muita propriedade, sabedoria e humildade, diz, falando do Grande Artífice, Zé Sifrônio, não conhecer, profundamente, a vida sacerdotal, nem é preciso, Carlinhos! Como você bem disse, em sua crônica, é necessário, apenas, ter-se o dom do reconhecimento, da gratidão para expor com inteligência o que foi o desempenho, nesta vida, do Mestre que ora nos deixa. 

Certa vez, quando trabalhava em Itaporanga, conversando com o grande pensador, Fernão Dias de Sá, numa das vezes em que ensaiávamos o Auto da Compadecida, ele com aquele “ar” contemplativo, como se estivesse olhando um ponto no infinito, dizia-me que toda pessoa tem uma missão a desempenhar, aqui, na terra. Agora, lendo as palavras de Paizinha, vejo-me obrigado a concordar com o fabuloso Fernão. A missão de Padre Zé, aqui, na Grande Obra do Arquiteto do Mundo, foi a de um construtor da cultura, das artes, da educação, em suma, um Edificador, termo, segundo Paizinha, que poderia ser gravado em sua tumba, aos pés do monumento daquele a quem Ele tão bem reverenciou, o Cristo Redentor, e eu concordo, plenamente. 

“Morte por aqui, renascimento por lá”. Que beleza! Que consolo espiritual para todos que ficam tristes com a separação, com a dor da eterna ausência. Este é o pensamento de Reynolds Augusto. Com muita propriedade enaltece a vivência de Padre Zé, entre nós, mostrando-nos a sua recompensa com muito júbilo, em sua chegada à Senda Espiritual, como um bom filho de Deus. 

Tão poucos são merecedores de tanta honra, é o que nos diz João Dehon em seu belo poema. Padre Zé Sinfrônio de Assis, o Cimo, o mais elevado, o Cume, a guarida e a sombra de muitos viventes, é o tronco que tomba mais não morre, perenizado pela benção de seus frutos, pela obra grandiosa que erigiu, é o que nos informa, este belo poema, de Dehon.

Complementando minhas homenagens ao grande timoneiro itaporangado, sinto que por mais que se queira mostrar o papel preponderante desempenhado por Ele, não se pode, jamais, dizer tudo, porque sua biografia foi tão bem escrita pelo tempo que, inesgotável, assemelha-se a uma cacimba, quanto mais se cava, mais o liquido precioso jorra.

Não é, somente, Itaporanga que chora! O vale do Piancó está de luto! A Obra monumental de Padre Zé, o Ginásio Diocesano de Itaporanga, do qual com muito orgulho fiz parte do corpo docente, juntamente, com Cleó, Júlio Nitão, Dora Chaves e tantos outros professores, foi o avanço cultural de que estavam carentes todos os Valenses. Jovens, de toda nossa região do Vale, que ao término do ensino primário, não tinham para onde se deslocar, na maioria das vezes, por situação financeira, encontraram, ali, o porto seguro, de onde poderiam zarpar para degraus mais altos, para ensinos mais avançados. A plêiade, dos muitos, hoje já doutorados, formados, músicos, é grande.

Uma homenagem justa e sincera ao Grande Sacerdote, seria denominar, aquilo, que era a menina de seus olhos, de: Ginásio Diocesano Padre José Sinfrônio. Ele que era um grande admirador de D. João da Mata, bispo diocesano de Cajazeiras, a quem fez as honras de cognominar o Educandário com o nome daquele Prelado da Diocese, certamente, mereceria ter, agora, o preito de gratidão pelo que construiu. Tenho certeza que, D. João da Mata, agradecido, comungará de minhas idéias, de lá, da grande Propriedade Divina. 

Jesus Fonseca

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Ademar Augusto

Por jesus  em 08/07/2006 


Eu nasci católico e professo, até os dias atuais, essa Crença Religiosa! 

Quando criança, em Itaporanga, na época, Misericórdia, pois, fazia um pouco mais de uma década da alternância do nome, convivi com Ademar Augusto, uns três anos mais moço que eu, menino em seus 10 anos de idade, mas já muito sério e compenetrado nas coisas da vida. 

Era primo meu pelos dois lados. Seu Pai, Antonio Augusto de Carvalho, era meu primo legítimo e sua mãe, Maria Perpétua Leite, prima em segundo grau. Demar, como costumávamos chama-lo, assim como eu e meus irmãos éramos filhos de assalariados estaduais e tínhamos como sonho, o saber, a cultura, mas a dificuldade era grande, pois em nosso rincão havia, apenas, o ensino primário e o deslocamento e estada em outros meios mais adiantados, onde pudéssemos cursar o ginasial, eram dificultosos. 

Tivemos mais sorte que ele, conseguimos vaga em seminários, eu no longínqüo Recife, Tõin em Caicó, Dehon em Cajazeiras e assim nossos caminhos bifurcaram-se. 

Entretanto, Ademar Augusto era valente e não desanimou. Naqueles tempos, o meio de comunicação era deficiente, no nosso “interiorzão”, fazia-se através de um único meio, os correios e telégrafos, precariamente. Crispim Pessoa, o Pessoinha, de saudosa memória, teve a idéia de criar um serviço de difusão através de Rádio e conseguida a licença, fundou a Rádio Cruzeiro do Sul, um avanço significativo para a comunicação do Vale do Piancó. 

E lá estava, o jovem Demar como seu locutor principal, difundindo a notícia, a música, às comunidades vizinhas, sítios, etc. Ele que nascera com a vocação para o jornalismo falado, dava assim seu primeiro passo vitorioso na senda da vida. Posteriormente, casou-se para constituir família, o destino de todo ser vivente e, anos mais tarde, viria a alcançar seu outro grande objetivo, a Formação em Direito. 

Quando partiu, prematuramente, deve ter chegado às Plagas Divinas, realizado, porque não há prêmio maior para qualquer ser humano do que ser sabedor que gerou um filho exemplar, inteligente, íntegro, digno do merecimento da Sociedade em que vive. E Ademar Augusto teve esta felicidade, ser pai de um ser humano da estirpe de Reynnolds Augusto. 

Comecei este relato dizendo-me Católico e ainda continuo, todavia, isto não me faz sentir castrado em não poder ver os erros e as benesses de outras religiões e os da que professo. Todas as religiões monoteístas têm em comum um só objetivo, a Presença de Deus. 

Os caminhos para esta difícil ou fácil caminhada, dependendo de cada um, através das religiões, são diferentes, uns mais pertos, outros mais longos, contudo que a meta seja atingida, no final. 

Apegar-se em demasia, “ipsi litteris” ao que se está escrito, sem nenhuma reflexão, sem alguma análise, pode se tornar danoso, levando muitas vezes, a pessoa ao fanatismo religioso. 

Eu gosto muito de ler o que Reynnolds escreve. Faço minhas análises, tiro minhas conclusões, discordo de alguns pensamentos, mas, em grande parte concordo e comungo de suas idéias espirituais. 

Para não me alongar muito, exponho um tema, exemplificando. Há uma Força Universal Infinita, não teve princípio nem terá fim, Criadora de tudo que está aí, dentro do mais perfeito equilíbrio que possa existir. Não importa as diversas designações para identificá-la: Natureza, Força maior, etc. Eu a identifico como DEUS. 

Se é Infinito, logo é ONIPOTENTE! Se foi capaz de criar todo o Universo com todo seu equilíbrio, logo é ONICIENTE e ONIPRESENTE porque está em toda parte. Ora, como é que uma Criatura, a essência da inteligência da sabedoria, da igualdade, nomeia um único povo, uma parcela ínfima da humanidade como o seu Povo, o Povo eleito de Deus? 

Como é que uma Criatura ONICIENTE, a essência da igualdade, cria local de eterno castigo para uns e um paraíso para outros? São pontos de reflexão que não devemos desprezar.

A propósito do que li em uma mensagem, "que alguém fazia caridade e não resolvia seus problemas", devo dizer que ninguém faz caridade visando retorno material, pois assim procedendo estará abolindo o verdadeiro sentido da ação, constituindo-se, então, numa transação comercial, por sinal, muito ousada, com Deus.

Aproveitando a carona, quero apresentar minhas congratulações ao amigo João Bandeira pelo retorno, com suas deliciosas crônicas. 

um abraço a todos!

Jesus Fonseca

terça-feira, 4 de novembro de 2014

A Orbe Celestial recebe Dona Maria


Jesus Soares da Fonseca

Eu ainda era garoto, menino “buchudo”, como se dizia lá para nossas bandas, outrora, quando chegou à cidade aquele moço de andar sereno, passadas largas, que viria substituir “Seu” Severino Campos na Estatística. Na época, apesar da existência do IBGE, o seu nome ainda não era bem divulgado. De forma que o Instituto de Estatística ou a Estatística era o que estava ainda em voga, pelo interior do Brasil. A Estatística, em Itaporanga, estava localizada em uma sala na Praça João Pessoa. Fernão Dias de Sá era aquele jovem Senhor que passaria a comandar o Instituto em nossa cidade. Com Ele chegara a Esposa, Dona Maria, mulher de fino trato, educada por convicção, voz tranqüila, suave, que logo viria granjear a simpatia da Comunidade. Itaporanga, eu poderia dizer, é uma cidade “sui generis” em por alcunha às pessoas. Assim, Dona Maria passou a ser chamada e conhecida por Maria de Fernão.

Minha tia Olívia Leite Guimarães, para quem se lembra ainda, era figurinista, modista, costureira, pintora alem de fina decoradora. Tendo as mesmas qualidades artísticas, Dona Maria de Fernão logo fez amizade com minha Tia Olívia, Bila, como carinhosamente a chamávamos, nós seus familiares. Foi assim que comecei a conhecer mais de perto Dona Maria, nos papos que ela mantinha com Bila, em suas trocas de idéias. Gostava mais de ouvir do que falar. Itaporanga toda vida teve uma vocação festeira, em razão disso os pedidos para decoração de bolos para festa de batizados, casamentos, confecções de vestidos, eram muitos, de forma que para não haver acúmulo, Bila recomendava os trabalhos de Dona Maria e vice versa.

Posteriormente, já trabalhando no BNB, em Itaporanga, tive a oportunidade do convívio de Fernão e de Dona Maria. Participei de teatro com o grande Fernão, quando tivemos a ousadia de encenar o Auto da Compadecida, sob a direção do nosso, não menos grande, diretor teatral Vanilton de Sousa. Eu era um admirador daquele Casal. Parecia-me, muitas vezes, que eles nos observavam com uma espiritualidade, como se vissem todo nosso interior, nosso âmago. Não estou sabendo descrever bem o que eu pressentia nos momentos em que tinha oportunidade de ouvi-los. O certo, é que Dona Maria era uma pessoa que transpirava bondade, tranqüilidade, que nos passava um sentimento de Paz.

Depois que deixei Itaporanga é que vim saber que Ela, assim como Fernão, era também Espiritualista com muita atividade no exercício da Doutrina. Agora, através dos escritos de Reynolds, de Titico vejo aquilo que no passado eu não sabia descrever, o seu espírito altruístico. Radicada aos costumes de nossa terra, Dona Maria deixa lacuna. É certo que ninguém é insubstituível, entretanto momentaneamente este vazio, com sua partida, se faz presente. Sabemos que tal exemplo de vida, por certo será seguido por outras pessoas ou por alguém que tenha sido tocado por tal magnitude. Resta o consolo àqueles que a conheceram que sua missão terrena foi cumprida com dignidade e sabedoria. Seu lugar, junto à “Mansão” Divina deve estar reservado, pois a cota a ela destinada no mundo material foi preenchida com garbo e muito amor.

Por mais que espiritualista seja o indivíduo, sua parte material sempre irá sentir a dor da separação, assim levo meus sentimentos de pesar a Ribot, Soraya e demais familiares, como também à grande Família Espiritualista de Itaporanga, notadamente aos membros do Centro Espírita Jesus de Nazareth. Poderia terminar com a expressão Descanse em Paz, mas, vejo não ser necessário, pois Ela já está em Paz junto ao Maior Arquiteto Universal
www.portaldovale.net

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

JESUS SOARES FONSECA, Homenagem justa

Por João Dehon em 28/10/2008

Fui informado que um Instituto de Pesquisas ortográficas e redações de Pernambuco vai conceder ao nosso querido Jesus Soares Fonseca uma comenda de escritor e redator, pelo mesmo ter se destacado entre esses.

É um reconhecimento daquela do referido Instituto a quem pauta sua vida à boa leitura e à arte de escrever, respeitando o português e fazendo da língua mãe a maneira de transmitir bem os mais diversos assuntos e, diga-se de passagem, ele é muito bom também em conhecimento gerais.

A distinção ultrapassa o aspecto formal para ser uma merecidíssima homenagem ao homem que Jesus o é, e durante toda sua vida escreve sem atacar, tendo a retidão como seu escudo e inigualável senso de crítica cumprindo sempre ao que se compromete quando está com uma “caneta” na mão.

A vida de Jesus Soares Fonseca é uma seqüência de atos e gestos corretos, alicerçados no estudo, no conhecimento e no trabalho profícuo.

Na verdade, em todos os cargos por onde passou, quer no Jornal Correio da Paraíba, quer no Banco do Nordeste do Brasil ele teve seu comportamento calcado na seriedade, pela dedicação e pela vontade de servir às instituições e à coletividade.

Seu desempenho em nível de redação foi, aliás, prolongamento dos seus primeiros passos como revisor do “Jornal Correio da Paraíba” nos anos sessenta, porem, tudo adquirido nos bancos do Seminário da Várzea no Recife onde teve o seu primeiro contato com o “Latim” e o “Grego”, além da boa Literatura gerada nos Seminários de antigamente.

Quem se dispuser a consultar as páginas da história de Jesus Soares Fonseca, constatará o que estou dizendo, e como filho de Dona Dazinha, na sua adolescência, ele sempre esteve com um livro na mão e nas horas folga com um Lápis se divertindo, enchendo uma palavra cruzada.

Jesus Soares Fonseca é inserido nessa homenagem e nessa galeria de sumidades, porque serve de exemplo e espelho para as gerações que hão de vir.

Jesus Soares Fonseca é uma rocha, sendo exemplo para as atuais e futuras gerações, pela sua grandeza no agir e na retidão de caráter.

A Comenda que lhe concedida, representa, com certeza, uma justa e merecida homenagem.

Nós os filhos de Dona Dazinha e irmãos de Jesus Soares Fonseca, agradecemos a quem concedeu essa comenda.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Uma Gigante em Nosso Meio


Por Jesus Fonseca

Parabéns a esta Jovem que chegou ao Vale do Piancó, há 36 anos, trazendo na bagagem, o AMOR, a ESPERANÇA, a Salvação e Redenção de muitas famílias que viviam aflitas, em desespero, vendo seus entes queridos sucumbirem sem esperança alguma, sem nenhuma perspectiva de retorno ao convívio familiar. Refiro-me a esta gigante Instituição intitulada de Alcoólicos Anônimos – AA, que luta bravamente em defesa dos mais desprotegidos da sorte, os filhos do vício, e o que é mais sublime, sem visar lucros, sem interesses maiores, a não ser a redenção de um Ser Humano.


Eu sei do que estou falando, pois já senti na pele, juntamente com minha Família, as agruras, os transtornos que esta doença causa no seio de um Lar. Nós somos uma irmandade muito unida porque assim nos criou nossos Pais, “Seu” Totinha e Dona Dazinha, principalmente Ela que ficou viúva muito cedo e chamou para si a responsabilidade de ser Pai e Mãe ao mesmo tempo, não medindo esforços em nos unir fraternalmente e nos educar. Assim, a alegria, a felicidade de um é a de todos Nós, igualmente, sua infelicidade, seu sofrimento, é repartido a Nós todos. Dentro deste parâmetro, passamos a sofrer quando dois de Nós foram contaminados pelo germe do álcool. Sabíamos, porque os conhecíamos, que eram pessoas inteligentes, responsáveis, amigos, queridos em nosso meio, mas que de uma hora para outra sofriam uma bruta transformação quando acometidos desse triste MAL, o alcoolismo.

Pois bem, inteligentes como eram e como são, sabiam que teriam de sair do vício e, não sei se a convite de alguém, se por iniciativa própria, ou se pelas rezas de Dona Dazinha ou se pelas três coisas juntas, encontraram a AA pelo caminho, na época ainda AAA. Lá a Associação, paulatinamente, foi lhes devolvendo a confiança, a mola mestra de que tanto necessitavam para pegarem o caminho de volta. Há quase 30 anos nossos queridos irmãos Edmilson e João Dehon Fonseca colheram a semente da sobriedade e voltaram brilhantes ao seio de nosso Lar.

Sentindo o benefício que alcançara, João Dehon partiu pelo Brasil afora plantando mudas e mais mudas desta Árvore Preciosa, a AA. Nunca mediu esforços em ajudar a quem necessitava, nesta jornada sublime de salvar seres humanos, roubando-lhes este vício maldito e corrosivo, fruto da degenerescência humana, e dando-lhes novo alento. Temos mais que nos congratularmos com os dois, não só pela conscientização do mal de que são possuidores, mas muito mais pelo exemplo de força de vontade que dão àqueles que ainda se sentem fracos na difícil caminhada de recuperação.

É do conhecimento de todos e já devidamente comprovado que a violência no País, principalmente no trânsito, é causada pela ingestão de álcool por parte de motoristas, geralmente com vítimas fatais. Por outro lado, o índice de morte através de armas de fogo ou de qualquer outro tipo, na maioria das vezes também é causado pela embriaguês, nas festas, nos fins de semana, principalmente. Os gastos com estes acidentados, vítimas do “trânsito alcoolizado” e/ou de armas manejadas “etilicamente”, são enormes por parte dos Governos dos três poderes, com utilização da rede hospitalar autorizada pelo SUS com custos bastante elevados com profissionais da Saúde e medicamento, etc.

Logo, aqueles Poderes deveriam olhar com mais carinho esta INSTITUIÇÂO, Alcoólicos Anônimos, pois ela é o antídoto para muitas daquelas mazelas de fins de semana. Quantas pessoas deixaram de provocar vítimas ou mesmo fazer parte da lista de sofrimentos destes acidentados, porque se conscientizaram através do AA de como devem se comportar no meio social? 


Imagine, então, se a verba gasta para tanto sofrimento, fosse empregada naquela INSTITUIÇÃO, através da criação de Locais Apropriados ao difícil trabalho de recuperar vítimas do alcoolismo, como FAZENDAS com as devidas Infra-Estrutura apropriadas ao mister? É um caso a se pensar com carinho e ousadia. Seguindo o modelo da AA, muitas outras Associações já foram criadas pelo Mundo afora para recuperação de Gastadores Compulsivos, de viciados em jogos de azar, viciados em sexo, como foi o caso do Ator Michael Douglas, usuários de drogas pesadas, como Heroína, Morfina, Cocaína, “Crac” e diversos outros tipos de mazelas sociais.

Verificando o Símbolo da AA vi estampados, em seu desenho, o Sol que nos dá uma idéia de liberdade, de translucidez, e bem dentro do seu núcleo o triângulo com fundo azul, ladeado pelas palavras: UNIDADE SERVIÇO e RECUPERAÇÃO, mostrando-nos as etapas a serem seguidas em sua árdua, porém, bela empreitada e finalmente centralizando todo o simbolismo deste trabalho a sigla AA, que nos passa a idéia de sua Majestade.

Entretanto, ante o grandioso trabalho e empenho da Instituição na busca gloriosa e perene na salvação de inditosos do vício, achei que o simbolismo já está com uma representação aquém daquilo que a AA realmente expressa, nos dias de hoje! Por isso, entusiasticamente, tomei a liberdade de acrescentar o que sinto, a representação que vejo na hercúlea labuta em busca do melhor Àquele Ser Humano em decadência. Assim, utilizando as ferramentas que o PAINT nos oferece, na informática, e me aproveitando da bela Representação Simbólica atual, ousei criar um outro simbolismo, acrescentando ao já existente outra forma de expressão.

Ao invés do triângulo, superpondo outro ao já existente, idealizei um HEXAGRAMA acrescentando mais três palavras representativas, AMOR, ESPERANÇA e REALIDADE, conservando, entretanto, as três já existentes, UNIDADE, SERVIÇO e RECUPERAÇÃO, procurando expressar a evolução da ALCÓOLICOS ANÔNIMOS na atualidade.

O simbolismo UNIDADE nos dá conta de que, na verdade, há uma Instituição sem interesses comerciais composta de uma irmandade que quer levar o alento àquele que procura suas portas.

Fiz questão de colocar AMOR no topo do Hexagrama, uma vez que adentrado ao seio da Irmandade, o indivíduo vai encontrar ali aquilo que supunha não mais existir, o Carinho, o Afeto, palavras de ânimo, sentimentos vários de amor que irão inspirar no Iniciante a vontade máxima de se recuperar.

O próximo passo, SERVIÇO, simboliza o começo da luta através das palestras, da desinibição da pessoa, antes complexada perante o meio em que vivia, um dos sentimentos infames auto-imposto pela crueldade da doença. 

Sentindo-se tratado como um Ser humano naquele meio amigável, voltam-lhe a ESPERANÇA de um dia voltar ao convívio dos Seus, de fazer parte com orgulho de uma Sociedade que o verá com admiração e com respeito.

O processo, então, de RECUPERAÇÃO é sentido e todas as suas forças são testadas, toda sua Fortaleza começa a dar mostra que Ele, indivíduo, já tem vontade própria, começa a domar seus sentimentos, vislumbrando aqueles que lhe podem ser maléficos e extirpá-los de dentro de Si.

Finalmente, a glória total, sua luta foi coroada de êxito, a REALIDADE do sonho tão almejado foi alcançada. Ele está pronto para retornar com muitos louros ao seio de seu querido Lar, ao convívio da Sociedade e como filho pródigo Ele retorna glorioso aos braços de seus familiares, de seus amigos, agora mais cônscio da responsabilidade adquirida naquela Irmandade que lhe acolheu de braços abertos proporcionando-lhe todo este seu Renascimento.

Parabéns e Obrigado ALCÓOLICOS ANÕNIMOS pela majestosa Obra que Vocês desempenham no seio das Nações espalhadas pelo mundo afora!

sábado, 25 de outubro de 2014

O Mundo vai se acabar! Mais quem eu fico?

A Internet, nestes últimos meses, vem massacrando ingênuas criaturas com a notícia de que o mundo irá se acabar em 21 de dezembro. Aproveitando-se da má interpretação do calendário Maia, povo que viveu no México até o fim do primeiro milênio, aproximadamente 900 DC, os exploradores tentam, de tempos em tempos, levar o medo a insensatas criaturas que vivem no mundo sob a proteção de um Deus aterrador que castiga rigorosamente aqueles que não seguem seus mandamentos criados por humanos, vigaristas de muitas religiões.

Os maias, ao contrário do que se propala, tinham uma matemática muito rude, com um sistema que complicava seus cálculos. Seu calendário era complexo e o observando, faz-me lembrar, nos meus tempos de informática quando exercia a função de analista, o sistema binário utilizado nos computadores, 00000001 igual a 1, 00000010 igual a 2, 00000011 igual a 3, etc.

Eles se baseavam em ciclos. Nos tempos hodiernos, em nossa civilização, um ciclo pode ser um ano, pode ser um século, um milênio ou mais ainda, uma ERA. Os Maias, também, em seu calendário, tinham tais ciclos com suas subdivisões, um dia era representado por 0.0.0.0.1, 20 dias eram representados por 0.0.0.1.0; um ano (360 dias em seu calendário) seria 0.0.1.0.0; 7200 dias equivalentes a 19 anos, 8 meses e 25 dias no calendário gregoriano, tinha sua representação assim, 0.1.0.0.0 e finalmente, 144.000 dias ou 394 anos 3 meses e 3 dias (calculei que neste período há 97 anos bissextos) era representado por 1.0.0.0.0 que eles chamavam de BAKTUN ou o fim de um ciclo. 

O fim do próximo BAKTUN com sua representação 2.0.0.0.0 teria mais 394 anos 3 meses e 3 dias. Com o passar do tempo e ao final de cada ciclo ou BAKTUN, alguns supersticiosos ou fanáticos ou vivaldinos, aproveitando-se da terminação 0.0.0.0 de cada Ciclo, estipularam que sendo zero igual a nada, indicaria o fim do mundo. Logo, agora em 21 de dezembro de 2012 quando se completa, no calendário antigo maia (não, o atual dos descendentes dos maias) o 13 BAKTUN ( 13.0.0.0.0) será o final dos tempos. 


Se diminuirmos 394 anos 3 meses e 3 dias de 21 de dezembro de 2012, teremos 18 de setembro de 1618, data em que se completou o 12 BAKTUN (um final de um ciclo maia), e como eu estou contando a estória agora, há de se supor que nada aconteceu! Ou o mundo se acabou? Se formos diminuindo ciclo a ciclo, veremos que a próxima data será 15 de junho de 1224 e nada aconteceu.

Outrossim, eu me faço a pergunta: se os Maias tinham tanto poder de previsão, inclusive saber a data em que nosso planeta se extinguiria, por que não previram a chegada dos famigerados espanhóis e consequente extinção de sua civilização?

Num Fórum que se abre no Site Terra a cada matéria ali divulgada, eu escrevi como descontração uma mensagem, com o pseudônimo que uso no FACEBOOK, Emmanoel Fonseca.

Zé Félix, um bonachão que morava em Itaporanga tempos atrás, gostava de tomar uns "pileques" e quando o fazia, a molecada, a fim de importuná-lo, gritava: o mundo vai se acabar! Ele, bonachão e espirituoso como o era, não perdia a classe e respondia: Mais quem eu fico? 

Certa galinha, num determinado terreiro, ciscava e catava algumas pedrinhas para ajudar sua moela na digestão alimentar. Como se achava sob um limoeiro, ao sopro mais forte de uma ventania, um limãozinho caiu-lhe na cabeça. Cocoricocó! Assustada saiu em disparada gritando ou cacarejando: o mundo vai se acabar! Quem te contou comadre galinha, perguntou-lhe o galo. Foi um limãozinho que caiu na minha cabeça! Puseram-se os dois em debelada carreira. Encontraram o Pato. O mundo vai se acabar, idêntica pergunta do Pato, mesma resposta da galinha: foi um limãozinho que caiu em minha cabeça! E os três continuaram correndo. Assim foram encontrando, ganso, peru, marreco, guiné ou galinha d\'angola, pavão, paturi e um sem número de galináceos que engrossava a fila de assustadas aves em busca de salvação. Lá para tantas, deram de cara com uma raposa que, ao ver aquele enorme alvoroço, perguntou: que está acontecendo? É o mundo que vai se acabar! Um limãozinho caiu na cabeça de comadre galinha. 

A raposa, matreira como sempre, lhes falou; venham comigo que poderei salvar a todos. Seguiram, então, o predador que os levou para uma determinada gruta. Fiquem aí dentro da caverna que eu vou arranjar acomodação para todos, quando eu chamar, vão saindo um a um que eu os agasalharei. Ficou do lado de fora e pôs a chamar: saia comadre galinha! Foi o primeiro almoço da raposa. Saia compadre galo! Foi o jantar! E assim, uma a uma foram sendo dizimadas as incautas aves. Realmente, a galinha tinha razão, o mundo se acabou.

Jesus Fonseca

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

O Ingênuo Lenhador

Por: Jesus Soares da Fonseca

O alto sertão nordestino sempre foi castigado por uma das piores intempéries da natureza, a seca. Com o evento, as paragens ficam desoladas, a temperatura durante o dia, quase insuportável. Tem-se a impressão que o dia é mais longo. Há, até, um dito meio sarcástico e gozador criado pelo próprio sertanejo de que: se o dono da Mercedes Benz quisesse ficar mais rico, era bastante montar uma fábrica de carro, ali, no semiárido nordestino, pois como o dia é comprido, daria para fazer mais carro que em qualquer outro lugar! Ao meio dia, a evaporação que limita a umidade do ar, já bastante seco, é tanta, que ao olhar para o horizonte tem-se a impressão visual que a terra está a tremer. É o mormaço quente como diz o sertanejo. Mesmo assim, no meio desta desolação, surgem cidades, vilas e povoados com seus habitantes sempre a espera das chuvas salvadoras que acontecem, geralmente, entre longos períodos de estiagem. Itaporanga é uma dessas cidades, encravada no alto sertão paraibano, a sofrer o castigo das secas. Nossa estória remonta aos anos cinquenta, quando o desenvolvimento passeava muito longe daquelas bandas.

Localizada à margem esquerda do Rio Piancó, cujas águas só se faziam presentes em seu leito em períodos chuvosos, a cidade abrigava pouco mais de dois mil e quinhentos habitantes em suas dezoito ruas, maioria com pouca ou quase nenhuma estrutura urbana. A energia era precária, advinda de um gerador com a única finalidade de não deixar a cidade às escuras quando a lua não se fazia presente. Em função disto, a população, sequer, tinha ouvido falar em eletros domésticos e muito menos no seu uso. Os poucos refrigeradores ou geladeiras existentes possuíam um pequeno motor movido a querosene, que gerava o gás refrigerador do aparelho. Os fogões eram à lenha e aí surgia aquela gente que abastecia a cidade com o produto, conhecida, na região, como “botadores” de lenha. Eram homens que, geralmente, morando em sítios na circunvizinhança da cidade, passavam quatro dias da semana, colhendo a madeira necessária ao consumo, os lenhadores. Entretanto, nem toda árvore servia para este consumo. As preferidas eram angico e aroeira, consideradas lenha de fácil combustão, encontradas em grande quantidade em função de sua resistência às intempéries naturais do sertão. Naturalmente, havia outros tipos de madeira menos apreciada, entre elas uma conhecida como “catinga de porco”, pomo das constantes discussões entre o abastecido e o abastecedor, uma vez que a madeira a muito custo desempenhava seu papel lá dentro do fogão, era de péssima combustão.
No sítio, a madeira colhida era posta no terreiro da casa, onde era rachada para ser levada à cidade. Uma ache tinha em torno de um metro de comprimento, conhecida pela população como “laxa de lenha”. Tomava-se o tronco da árvore, cortava-o em toras, mais ou menos em torno de um metro de comprimento e as abria pelo meio, em duas ou três “laxas”, dependendo da grossura do tronco. Após o serviço, era hora de conduzir a lenha para a venda. O jumento, conhecido como jegue, era o meio de transporte da preciosa lenha. Em cangalhas preparadas para o uso, colocavam-se quinze aches de cada lado do “jegue”, formando a carga que iria abastecer determinada casa na cidade. Partindo dos sítios, lá iam eles com suas tropas de jumento em direção à rua, conduzindo o combustível tão necessário à existência da Comuna. Sem rancor, sem ódio, no descarrego da lenha, começavam as discussões, as teimas, naquele linguajar peculiar do sertanejo, onde a gramática andava a quilômetros de distância.

- Seu Luis, o sinhô mi perdoi, mas esta lenha não é da boa, não!
- Dona Zefa, a sinhora ta inganada! A lenha é ispiciá e eu só trabaio pensando nas freguesa!
- Como ispiciá, se aqui tem laxa de catinga de porco! Pra catinga de porco pegá fogo agente tem que gastá duas ou mais garrafa de gás (querosene) e alem disso a cumida sai fedendo a gás!
- Dona Zefa eu vou repeti, a sinhora ta inganada, essa laxa de lenha é de angico, é pruquê a lenha ta verde, esta semana foi um pouco nuiblado e a lenha não inxugou direito!
- Seu Luis, o sinhô é um home de veigonha, faz mais de mês qui o céu de Deus é azuzin, azuzin, aonde o sinhô foi incrontá as nuvem?
- Não sinhora, lá pra nois fez sombra sim, sinhora. Lá teve dia qui o céu não era tam azuzim, como a sinhora diz! Mais vamo fazê o siguinte! A sinhora acende o fogo com a aroeira, lenha boa, a sinhora sabe disso, quando o tição pegá fogo, a sinhora mete a madeira aqui, a qui tá mais verde, ta certo? 
- Tá bom, seu Luis – resignava-se a mulher. – quanto devo?
- Dez mi reis!
- O sinhô ficô maluco? Todo mundo ta vendendo por oito mi reis a caiga e o sinhô vem mi cobrá os oio da cara? 
- Eita mulerzinha xorona! Dona Zefa, minha lenha é da boa! Os outo pode vendê inté pru menos, mais eu agaranto que num tem trinta pau de lenha cuma a minha, num dá nem pru mês!
- mais a lenha do sinhô ta misturada, o sinhô num pode negá isso!
- Dona Zefa, minha lenha é boa eu já ispliquei isso, aquilo ali é lenha verde, eu já falei. Pronto, pra num perdê o freguei, a sinhora basta mi dá nove mi reis, pru meno num dá!
- Olhe Seu Luis, eu só vou pagá os nove pruquê o sinhô é um home pontuau, num deixa a gente na mão, mais de outa veiz o sinhô num traga lenha misturada qui eu num aceito, não!

Assim, a vida cotidiana do bravo sertanejo prosseguia por aquelas paragens castigadas pelo tempo, contudo, o bom humor imperava ali, ninguém se maldizia nem entregava os pontos, a luta era ferrenha contra o quase eterno verão. Com a ignorância reinante,os políticos tiravam proveito da situação e o progresso circulava a muitas léguas de distância, quando muito, construíam uma Casa de porte médio na periferia da cidade com quatro compartimentos, chamando-a de Escola, onde a meninada aprendia o bê-a-bá através de uma professora mal remunerada e de pouca cultura. O ensino mais adiantado residia num Grupo Escolar mantido pelo Estado, frequentado pelos filhos de famílias um pouco mais abastadas, como compradores de algodão, negociantes, etc,  pois, o Estado arcava, apenas, com o salário dos professores, o fardamento e material escolar eram por conta dos Pais.

Lincolm era filho de lenhador
Nossa estória acontece e tem como enredo um dos muitos fatos ocorridos na Comunidade, razão porque se faz necessário o conhecimento dos costumes desta gente, naquela época. Ademais, sempre é bom relembrar para as gerações de nossos dias alguns costumes, como os expostos, que em função do atraso daquela época, mostram-nos como a gente do povo era obrigada a se tornar rica em criatividade. Dentro deste contexto, apareço com outra figura que foi de suma importância, assim como o “botador” de lenha ou lenhador, para o desenvolvimento de muitas destas cidades que pululam pelo interior de nosso País, as “botadeiras d’água”, como eram conhecidas.

A cidade, como a grande maioria das comunas que se espalham pelo interior do País, naquela época não possuía o Serviço de Saneamento d’Água, fornecedor do líquido precioso tão necessário, não só como consumo humano, mas sobretudo, à saúde. Como a água é um líquido necessário à sobrevivência dos seres vivos, o homem, de uma forma ou de outra, sempre haverá de encontrá-la. Em Itaporanga não era diferente. O leito seco do Rio Piancó era o seu manancial. Durante as ocasionais e raras cheias que ocorriam no Piancó, as águas, como uma bênção dos Céus, acumulavam-se sob sua superfície, formando grandes lençóis freáticos, fontes das inúmeras cacimbas existentes por ali.  O Sertanejo, em sua busca perene pela sobrevivência, além de ser um forte, como disse Euclides da Cunha, também, é criativo. Para usufruir do líquido subterrâneo e dos espaços porosos que se formam nas areias do rio seco, fazia-se um caixão retangular em sua profundidade de, aproximadamente, metro e meio de fundura, de base quadrática com oitenta centímetros de lado ou, mais precisamente, três metros e vinte centímetros de perímetro e, é óbvio, oco em suas bases. Na ausência das pás modernas feitas para escavação, era utilizado um enorme caneco dentado de alumínio, fruto também de sua criação, com trinta centímetros de diâmetro, com enorme cabo de madeira enfiado, quase que em sua base, em diagonal, para facilitar o manejo.

Colocava-se, então, o caixão no leito seco do rio com ligeira pressão para baixo e, com o caneco, ia-se retirando a areia do seu interior, gradativamente, que, em virtude da pressão exercida para baixo, afundava-se até atingir o lençol freático que se achava a pouco mais de um metro da superfície. O líquido precioso, como um milagre, timidamente, dava o ar de sua graça, surgia graciosamente preenchendo a área da caixa, à proporção que esta penetrava no areal do rio, até ficar quase a altura de sua superfície. Estava pronta a cacimba que se espalharia em grande quantidade naquela área delimitada do rio, própria para aquela finalidade. Surge, então, a figura dos carregadores de água, popularmente conhecidos como “botadores” e  “botadeiras” d’água, heróis anônimos que, incansavelmente e involuntariamente, de uma forma ou de outra, fizeram a sobrevivência do Sertão, coadjuvantes do futuro progresso da Região.

Para completar o palco onde se desenrolará o nosso enredo, outro costume daquela gente sertaneja não poderia deixar de ser exposto. Atemos a ele, pois!

O zelo e o respeito aos mortos certamente faziam ou fazem parte do povo do sertão, como herança não só da contribuição africana, sobretudo, da cultura indígena. Como o seguimento Católico predominava, quase, em cem por cento a fé da população, na cidade havia duas igrejas, a Matriz, onde eram realizados os diversos cultos, batizados, casamentos, novenas, missas dominicais, e a do Rosário, relíquia de sua fundação, que se prestava, apenas, a uma finalidade, receber em seu interior aquele que cumprira sua missão terrena. Todo morto, ao se iniciar a condução do féretro a sua derradeira morada, inevitavelmente, teria que passar por aquela Casa de Deus. No interior do recinto, os participantes do enterro rezavam um padre-nosso, uma ave-maria e uma salve-rainha em intenção da alma do falecido e, só então, seguiam em direção ao cemitério. Nesta ocasião, um sino situado na torre da igreja, plangentemente soava, como que, em despedida ao que se ia para sempre. A pessoa encarregada do toque fúnebre era um senhor que recebia alguma pecúnia para exercício de tal mister, o que fazia com denodo, virando o sino, em determinados momentos, fazendo-o girar em suas bases de sustentação situadas lateralmente em uma das quatro janelas do campanário, aquela virada para o cemitério. Era um espetáculo triste, mas ao mesmo tempo, deslumbrante, quando o badalo, impulsionado pela rotação do sino, tocava seu interior, fazendo ecoar um som nostálgico e melancólico, era o sinal dobrado, como se dizia, para aquele tipo de toque. “Seu” Zezim  Pacato era este homem! Mais adiante, iremos encontrá-lo na nossa estória.

Quinca Cordinha era um daqueles  lenhadores. Era um indivíduo alto, esguio, um pouco magro para sua altura, setenta quilos para um metro e noventa e cinco de altura, com o caminhar típico sertanejo, de passadas largas e céleres, como exigia sua profissão, pois a vagareza era proibida naturalmente para aqueles que achavam, ali, seu ganha-pão. Com uma tropa de dez jegues, juntamente com seu filho Pedro, fazia semanalmente a entrega da lenha nas casas da cidade. As “botadeiras” d’água, cada qual com sua rodilha na cabeça, artefato, não só de proteção ao peso da lata de vinte litros, como para seu equilíbrio, faziam seu périplo diário, do rio à cidade e vice versa, numa algazarra infernal, dando conta da vida da cidade inteira,  fofoqueiras, muito mais pelos “ossos” do ofício.

Foi num dia desse vai-e-vem de fofocas que surgiu uma estória que viria abalar a Comunidade. Quinca Cordinha morrera! O boato logo tomou conta de toda população. Como era uma sexta feira, suas freguesas, além de constrangidas pelo passamento daquele homem bom e trabalhador, como era conhecido, também estavam preocupadas com a falta da lenha que, certamente, iria acontecer. Como não poderia deixar de ser, a notícia chegou aos ouvidos de Zezim Pacato que, de pronto, pensando muito mais no possível dinheiro que iria ganhar do que no falecimento de seu conterrâneo, partiu como um raio em direção a Igreja do Rosário para, ali, executar os primeiros dobres funerários. Vez por outra, ele parava de tocar o sino e verificava, através de uma janela da torre, a estrada que saia por detrás dos muros da última rua da cidade, em relação ao rio, se o enterro já se aproximava.

O relógio da Matriz badalou duas horas da tarde! Zezim Pacato correu para a janela a espiar, novamente, então avistou Pedro Cordinha tangendo seus cinco jegues repletos de lenha.  Um tanto quanto intrigado com o que via, indagou: - Ô Pedro cadê teu pai?  Ato contínuo, ouviu a resposta: - Vem aí atrás! Zezim Pacato voltou correndo para o sino e dobrou o sinal com todo ímpeto que podia, para informar à comuna inteira que o cortejo fúnebre do inditoso lenhador já entrava na cidade. De repente, entre os sons barulhentos do dobre ele pensou ter ouvido vozes e correu para a janela do campanário. Ficou estupefato com o que via, lá do alto da torre da Igreja!  Quinca Cordinha, gritando a plenos pulmões para a tropa de jumento: - “Xô jegue! Anda pretinho! Dipressa roxim!” – Meio abobalhado e sem acreditar no que via, gritou alto e bom som de onde se encontrava: - Ôxente, home de Deus tu num tinha murrido? Me diz pur amô de Deus, Quinca, fala home, mi isplica tu ta vivo mermo?  Lá de baixo, então, Quinca Cordinha com toda ingenuidade que lhe era peculiar e muito sério, respondeu: Tu é besta Zezim, tu acha qui se eu morresse eu ia ti negá! E tocou a manada para frente, deixando Zezim Pacato, não só decepcionado, como furioso pela grana que não receberia.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

PORQUE ITAPORANGA

PORQUE ITAPORANGA
Jesus Fonseca

Este artigo eu escrevi tempos atrás fazendo um adendo à matéria, “Porque o nome Itaporanga”, de um nosso grande historiador, conterrâneo Lourival Inácio Filho.

Parabéns ao historiador Lourival Inácio Filho que, demonstrando bastante conhecimentos sobre nossa querida Itaporanga, soube, com sapiência, narrar a razão da passagem do nome de Misericórdia para Itaporanga. Realmente, os fatos aconteceram como foram, pelo historiador, expostos . No entanto, pequenos detalhes, por sinal, bastante interessantes, talvez por se tratarem, digamos assim, de assunto caseiro, deixaram de fazer parte da crônica do ilustre escriba.

Ábdon Leite da Costa Guimarães, Major da Guarda Nacional, homem culto e estudioso, conhecedor do Latim e do Francês, o que de certa forma dava a ele um determinado destaque naqueles rincões sertanejos, era possuidor do único cartório da cidade, (cartório este que, em razão de sua aposentadoria, anos mais tarde, fora desmembrado em três, passados, um para Hormisdas Teódulo que por sua vez, também ao se aposentar, transferira para Maria Ivete da Fonseca Pinto, um segundo para Irineu Rodrigues da Silva, tendo como proprietário atual, Irineu Rodrigues Júnior e um terceiro para José Barros Sobrinho, cuja propriedade, hoje em dia, é de Beto Barros) e, justamente, em função deste “status” tinha por costume receber em sua casa juiz, promotor público, rábulas e professores, entre eles, professor Pedro Neves, um dos precursores do ensino em nossa cidade, para bate-papo nos fins de tarde, onde eram debatidos assuntos diversos que giravam, principalmente em torno da política do Estado.

Um jovem estudante, muito admirado pelo Major Ábdon por sua inteligência, de quem recebia muitos incentivos, inclusive, cognominado por ele de futuro bacharel de Misericórdia, se fazia presente àquelas cavaqueiras, (roda de conversas amigáveis, termo muito usado na época) em razão do alto teor da palestra. Era o moço Praxedes Conserva da Silva que, já, nestas ocasiões, demonstrava seu repúdio pelo nome Misericódia, taxando-o como atraso para uma cidade. Misericórdia de que? Expressava-se com ênfase, misericórdia de nossa inexpressiva pequenez?

Quero, aqui, frisar que naqueles tempos, alguns jovens entusiasmados com ilustres personagens da época ou, ainda, admiradores da natureza, costumavam acrescentar, aos seus nomes, sobrenomes daqueles que eram alvos de sua admiração. Assim, como citação, vamos encontrar um Abdias de Sousa, jovem inteligente da Sociedade Misericordiense, juntando ao seu nome, Rosa e Silva, em homenagem ao político e escritor da época. Ao acadêmico Praxedes, também não faltou esta inspiração pela mãe natureza.

A pitangueira é muito rica em gêneros e espécies da flora brasileira, desconhecida completamente, na época, naquelas paragens, fazendo parte das dicotiledôneas, tendo como fruto a pitanga. Porém, menos do que a homenagem ao pequeno mas, opulento fruto, o vaidoso mancebo optou pelo nome PITANGA por se tratar de um termo que no tupi entra na formação de várias palavras dando a ideia do eterno menino. Segundo, palavras de Major Ábdon, o agora Praxedes Conserva da Silva Pitanga costumava dizer: “Minha matéria poderá envelhecer, minha essência, jamais”.

Assim, chegamos aos idos de 30. Aquele jovem vaidoso, continuava o sendo, já se fazia presente na política local. Sua ojeriza pelo nome Misericórdia sempre o acompanhou. É bem verdade, como cita o historiador Lourival Inácio, em sua crônica neste SITE – PORQUE O NOME ITAPORANGA, os amigos políticos de Pitanga gostavam de fazer desfrute pela alcunha do município – “eles têm misericórdia dos que matam!” – Aquelas brincadeiras deixavam o seu íntimo muito magoado.

Horácio, grande escritor latino, dizia: Ab ovo usque ad mala, isto é, Desde o ovo até às maçãs. Com efeito, o dia das “maçãs” para Pitanga era chegado. Através do decreto-lei 1164, legislado na Câmara Estadual da Paraíba, datado de 15 de novembro de 1938, Pitanga foge de Misericórdia para entrar glorioso em Itaporanga. Entretanto, pão de pobre parece que não é assado em forno quente! E Praxedes Pitanga, 5 anos após, era pobre, politicamente, naqueles idos de 1943. Seu adversário e parente, o médico Dr. José Gomes da Silva, que tinha como correligionário, na ocasião, um jovem doutorando em medicina, vindo de Piancó, mais precisamente, do distrito de Olho D’água, Balduino Minervino de Carvalho, conseguiu anular o DC-1164, com outro, o de número 520, tirando Pitanga de Itaporanga e o colocando novamente em Misericórdia.

Dr. José Gomes da Silva, eleito Deputado Federal pela vontade do povo, nas urnas, com o voto da população, na ocasião era pródigo em prestígio, esbanjava-se de poderes políticos, inclusive, já fora nomeado Interventor da Paraíba, no impedimento do governador do Estado. Mas, a ciranda política é uma verdadeira roda-gigante, hora uma cadeira está em cima, outra, em baixo. Em 1949 com a pujança da União Democrata Nacional, a UDN, desfraldando sua bandeira vitoriosa, no País com a eleição vitoriosa 4 anos atrás, do General Eurico Gaspar Dutra para Presidente da República, e na Paraíba, com Osvaldo Trigueiro, para Governador, a cadeira de Pitanga, na roda-gigante misericordiense, era a mais alta. E lá de cima, ele, glorioso, sopra Misericórdia aos ventos, tira Itaporanga do seu coração e a coloca no lugar de onde havia sido extirpada.

Porque Pitanga venerava tanto o termo Itaporanga? Seria pelo belo significado em tupi, Lindo Rochedo, Pedra Bonita? Inquirido, certa vez e por muitas outras, conhecedor de Praxedes da Silva Pitanga, a quem recebera e aconselhara, muitas vezes, em sua casa, Major Ábdon costumava nos responder, pondo a verdade à tona: “Eu conheço por demais, Pitanga! Ele, sempre foi muito vaidoso, até na formação do seu nome extra. A escolha de Itaporanga, surgiu, porque este termo contem as letras da palavra Pitanga. Eu não sei, por que, inteligente como o é, não tenha criado o refrão que eu acho mais preciso – Ora Pitanga por Misericórdia, pois juntando e fazendo alguma transposição nos fonemas das duas primeiras palavras da oração, iremos Ter – Itaporanga por Misericórdia”. Realmente, observe o vocábulo ITAP(ORA)NGA, transpondo a letra P para o início da Palavra e fazendo uma síncope do termo ORA iremos ter aquela pequena oração. Ábdon leite, realmente era muito perspicaz. Ele conseguiu ver muito mais, no termo ITAPORANGA, que o próprio Pitanga que, certa vez, sabedor do trocadilho silábico, sorriu e disse: “Realmente, o Major não só é um homem inteligente e culto como merece todo nosso respeito, apreço e admiração, é um meu grande amigo e foi, outrora, meu conselheiro, apesar da diferença de nossas idades”. Na verdade, o Major Ábdon Leite era mais velho que Praxedes Pitanga, 26 anos, nascera em 1870.

De um fato na escrita do historiador Lourival Inácio, eu não tinha conhecimento. A barganha com os doces para quem chamasse Itaporanga ao invés de Misericórdia. A história da Salve-Rainha eu conheço de outro modo e, novamente, volto a ressaltar que talvez não seja do conhecimento do nosso escriba, por se tratar, como já relatei, lá pelo começo desta matéria, de estórias mais íntimas de nossa cidade.

Sula, um filho de Misericórdia, casado com a irmã de Pitanga, Teódula de quem nasceu o, hoje, Dr José Benjamim da Silva, carinhosamente conhecido por todos nós como Zelito, era muito amigo e seguidor político, claro, de seu ilustre cunhado. A oração, que os devotos a Nossa Senhora conhecem, é: – Salve Rainha, mãe de Misericórdia, vida doçura, Esperança nossa, salve……etc.

Ora, os seguidores políticos de Dr. José Gomes da Silva, logo, puseram suas mentes imaginativas em ação – Salve Rainha mãe de Itaporanga, a vida de Sula é venerar Pitanga. Há ainda outras loas, de adversários políticos de Praxedes Pitanga, porem, eu me eximo expô-las, pois em suas interpretações poderá haver o deslumbre de sentimentos preconceituosos.

Outro fato interessante, e merece menção, é que, apesar do nome oficial, nos registros em cartório, nas placas de automóvel, Misericórdia, ainda teimava na boca do povo até fins da década de 60 e começo da, de 70. Em meados desta década, talvez, em virtude da geração nascida e registrada em Itaporanga é que o nome começou a ganhar a preferência da população mais jovem. Com efeito, atravessamos então os anos oitenta já com o grosso da população, desconhecendo completamente Misericórdia. Hoje em dia, há, ainda, muita gente na faixa dos setenta que, na maioria das vezes, prefere Misericórdia a Itaporanga. Muitos de minha geração acharam, por bastante tempo, esquisita a nova denominação. Algo no cérebro, quando nos referíamos a nosso torrão natal, rejeitava o epíteto ITAPORANGA. Eu me lembro, muito criança ainda, ter perguntado a minha mãe: – ‘Mãe por que Misericórdia num tem carro?’

- ‘Mas, Misericórdia tem carro, sim! Poucos, mas tem!’ – ‘Não, os carro daqui, as placa é tudo de Itaporanga.’ (o linguajar era esse mesmo). Foi então que minha mãe entendeu a confusão e me explicou o fato e tudo aquilo que meu bondoso avô, Ábdon Leite da Costa Guimarães, de saudosa memória, expunha àqueles que o argüisse sobre o assunto.

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