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Localização e cidades que compoem esta região sertaneja.

José Brunet Ramalho

Primeiro Prefeito de Misericórdia.

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terça-feira, 10 de março de 2015

Câmara Municipal de Itaporanga convida a população para discutir LOA (Lei Orçamentária Anual), vigência 2012

A Constituição Federal de 1988 dispõe de uma seção específica sobre orçamento, em seus artigos 165 a 169, a qual deve ser amplamente estudada e compreendida.

A base para um bom entendimento sobre orçamento público, passa pela compreensão dos conceitos e características do PPA(plano plurianual), LDO(lei de diretrizes orçamentárias) e LOA(lei orçamentária anual).

O orçamento participativo terá como meta principal  reduzir desigualdades, segundo critério populacional.Ninguém melhor que a própria população para conhecer suas prioridades.

Com o intuito de tirar do papel e tornar o assunto verdadeiramente discutido entre as Classes e Entidades a Comissão de Justiça e Redação da Câmara Municipal De Itaporanga,convida a população em geral para participar das reuniões para analise e discussão do Projeto  de Lei Orçamentária para  vigência de 2012.

As reuniões aconteceram sempre na sede própria da Câmara Municipal de Itaporanga a partir das 20 hs.

Calendário de Reuniões

CDL – 30/09/2011
CONFIM-(Comunidades rurais) – 06/10/2011
Maçonaria – 07/10/2011
Igrejas Católicas e Batistas – 13/10/2011
Fund.Frc° de Sousa e Anália Rodrigues – 14/10/2011
Colégio Diocesano e Monteiro Lobato – 20/10/2011
Liga Desp. De Itaporanga – 21/102011
Conselho tutelar e Centro Esp. J. Nazaré-27/10/2011
Assoc. dos Agentes Com. De Saúde e Cop.Mun. de Assistência  a pobreza 28/10/2011
Educação e Saúde 

bog do vereador Saulo

sábado, 7 de março de 2015

Itaporanga


Olá minha querida Itaporanga, estou aqui pra lhe falar algumas palavras, algo que está formigando o meu juízo. Venho falar com você, sei que já é uma Senhora, de maneira que lhe respeito, vou respeitosamente chamá-la assim.

Quero lhe dizer que lhe admiro, reforçando, pois sou seu filho; um filho sertanejo, paraibano, nordestino e brasileiro. Por reconhecer que é uma Senhora trato como merece e a estimo muito, pois guarda meu umbigo enterrado em seu solo, embora já decomposto. A Senhora abrigou um dos meus troncos genéticos, o Senhor Alexandre Gomes da Silva – um dos colonizadores que lhe criou. Vou lhe confessar: ser seu filho não foi tarefa fácil, como de fato não o é; tive que enfrentar muito desafios, enfrentar seu clima, as vezes sua escassez de água, a fonte da vida; mas isto é o que me estimula, faz sentir-me um nada e ao mesmo tempo um forte somente para encarar dificuldades, porque é um prazer, pra mim, vencer desafios. Vou acrescentar algo mais, que me faz aumentar a minha estima: a Senhora abrigou algumas pessoas, também filhos seus, que reforça a minha consideração: os meus avós Pedro Doma de Alexandria, o Seu Doma, Adauto Herculano dos Santos, Seu Peixinho e as esposas destes patriarcas com muita dignidade como também o meu pai Senhor Francisco Gomes de Alexandria todos “in memoriiam”. Abriga também aí em seu solo a minha mãe social e genética com muito respeito, muita dignidade: Dona Marina Herculano de Alexandria, Dona Marina. Abrigou e abriga muitas pessoas que tenho consideração, os habitantes dessa cidade, os lutadores, os dignos, os honestos, os abnegados com os desafios, os alegres e festeiros, os vaidosos: é meu povo é muito vaidoso – se for pecado que Deus nos perdoe - mesmo nas piores situações, pois seus filhos são alegres, guerreiros, lutadores, festeiros, trabalhadores sem generalização, salvo as exceções. 

Gostaria de lhe falar que a Senhora possui muitos filhos, e muitos filhos brilhantes, e quando falo de filho; não é só filho nascido do seu ventre não; são outros filhos por adoção, pois mãe não é só mãe que pare, mas a mãe que adota também. 

Hoje seu filho é um alagoano por adoção, não só alagoano como itaporanguense, paraibano, nordestino e um brasileiro cidadão e que está antenado no mundo em sua volta.

Os seus filhos verdadeiros lutam pela Senhora, vive pela Senhora, pois a ama. Esteja onde eu estiver, estou de olho em seus filhos, conheço todos e sei que tem filhos bons e filhos maus, porque aquele filho que lhe usa sem lhe valorizar; desvaloriza a maior riqueza que é o desenvolvimento humano – São seus filhos desnaturados, então a sua família inteira tem de ficar de olho neles e a Senhora como mãe severa há de puni-los de forma correta.

Estamos de olho em seus filhos. Temos uma ferramenta chamada “internet” que permeia o mundo inteiro segundo a segundo, passando as informações gostosas oriunda da mãe Itaporanga. Temos o itaporanga.net, itaporanga.com, Folha do Vale, blogs e toda mídia informativa que transmite nosso território para o mundo.

Senhora Itaporanga, mais uma vez, sou seu filho, sou cidadão brasileiro acompanhando o mundo. Estou ligadíssimo. A Senhora merece que seus filhos a tratem com respeito e responsabilidade: cuidando bem do seu solo com as ferramentas: educação, saúde e segurança sempre nessa ordem. Se seus filhos lhe tratarem dessa forma, estão lhe dando o desenvolvimento. 
Não sou forasteiro e vivo ai, embora distante como muitos irmãos itaporangueses que moram fora.

A sua bênção.

Abraço a todos itaporanguesess espalhados pelo mundo. 

Francisco C Alexandria em  26/01/2008

Resgatando Dívidas - Parte 3

Segundo casamento

No início de 1912, morre minha avó, de paralisia, e é enterrada no cemitério de S. Boaventura. Devia estar com a idade de quarenta anos, se se tomar 1872 como data de seu nascimento, como tudo leva a crer. Nem meu avô e nem qualquer filho teve ânimo de seguir o enterro, pelo que ficou desconhecido, totalmente, o local da sepultura. 
Sobre esta avó, tenho de relatar alguns pormenores de sua vida, por serem de extrema beleza. Se meu avô era um justo, Ana, sua mulher, era uma santa. Não no sentido vulgar da palavra, mas, em toda sua real significação cristã. O que soube, a seu respeito, me conduz a esse convencimento. 
Ainda criança e órfã, assumiu, com zelo e dedicação admiráveis, os encargos domésticos, a criação e educação dos irmãos menores Francisco, Luiz e Regina, afora os cuidados com o próprio pai. Como esposa, foi exemplar e inigualável. O amor e respeito devotados ao marido, impressionavam, mais parecia veneração. Durante as reuniões familiares, ela sentava-se a seu lado, sem lhe despegar os olhos, toda ouvidos, numa expressão fisionômica de indisfarçável encantamento. E, como mãe, não se pode definir, foi grande, demais. A educação, moral e religiosa, ministrada aos filhos, chega ao sublime, tais a beleza e profundidade de que se revestia. Infundiu, em suas mentes e corações, o mais acentuado espírito de obediência e as mais tocantes lições de amor ao próximo. Ensinou-os a respeitarem, de tal modo, os mais velhos, que a todos tomavam a bênção, chamando-os, carinhosamente, de tios, não importando a cor da pele, o sexo ou a situação econômica. Quando, por alguma trela, “apanhavam”, recebiam, além do castigo merecido, uma penitência a cumprir, em orações, à moda do confessionário. Todas as vezes que ia visitar um enfermo, levava as filhas, e, a certa distância da casa, pondo-se ao abrigo de olhares indiscretos, caíam juntas, de joelhos, no chão limpo, a rezar pelo doente. Diz, ainda, minha mãe que, à tardinha, ela desaparecia, como por encanto, sem que ninguém o percebesse. Dada a falta - que, de começo, era o alarma – iniclava-se a busca, dando-se com ela, por fim, no meio das moitas, absorta, em oração, no mais profundo e comovedor recolhimento espiritual. 
Passo a não entender como uma criatura, inteiramente ignorante, sem guia e sem instrução, possa ter atingido a tais alturas de perfeição cristã. Por tudo que soube de sua vida, ouso afirmar, sem receio, que não chegou a conhecer o pecado mortal, tendo morrido, como tudo indica, em verdadeiro estado de graça. 
A viuvez tornou-se insuportável e insustentável, para meu avô. Com uma casa cheia de filhos e a cabeça já não tão firme, fazia-se preciso devolver­lhe a tranquilidade d’alma. Vivia a maior parte do tempo, recolhido ao quarto, em pesado desconsolo e prostração. E só uma pessoa poderia tirá-lo desse estado, a cunhada Regina, ou Vicença, como a chamava. Só ela reunia as qualidades e condições requeridas e a situação aconselhava, e com uma enorme vantagem: os sobrinhos a queriam, muitíssimo, tendo-a, já, como segunda mãe. O difícil foi convencê-Ia. Até o vigário, para quem apelaram, foi posto no meio das dificuldades. Finalmente, removidas, nos fins do mesmo ano de 1912 estavam casados. Ela, também viúva, de casamento com João Marcolino, portava um filho menor, José, meu futuro pai. 
Foi outra união feliz, que durou até 1919, quando ele morreu, de complicações cardíacas, em sua casa do Barrocão, ainda existente. Estava dentro dos cinquenta anos, ao se aceitar 1869 como data de seu nascimento. Sepultaram-no junto ao major Serafim, seu grande amigo, no cemitério velho, destruído, posteriormente, para dar lugar às atuais ruas paralelas S. José e S. Antônio, ao lado poente da matriz. 
Desse enlace, só houve um filho, Lucas Antônio dos Santos, nascido em 
1915, que se casou com Dulcinéia Braga. Faleceu em 21.09.85, e foi enterrado na mesma cova do irmão Néli, no cemitério de Itaporanga, onde exercia as funções de Oficial de Justiça. Deixou viúva e os seguintes filhos: Maria de Lourdes / José A. Neto / Maria do Socorro / Maria Marluce / João A. Neto / Josefa Maria / Ana Maria / Maria de Fátima / Manoel L. Antônio / Jocélio Antônio / Francisco Antonio e Lucas Antônio S.Filho. 

A Favela

Em 1923, quatro anos após a morte do segundo marido, minha avó Regina considera cumprida sua missão, junto aos sobrinhos enteados. Já adultos, não careciam tanto de sua assistência como o filho José, casado com minha mãe, desde 1914. Naquele ano, ele comprara a propriedade Favela, a 3 kms de Misericórdia, e ela julgou de seu dever ficar a seu lado. 

Um fato inédito e pitoresco

Nem bem tinham chegado da mudança, e eis que surge, de repente, um fato eventual, pondo em risco o ótimo relacionamento entre nora e sogra, pelos vexames causados. O contratempo partia da circunstância de terem de morar sob um mesmo teto, coisa que não acontecera, anteriormente. E só uma dona de casa do meio rural saber da importância de um pai-de-terreiro, para sua criação de galinhas. E, por uma e outra trazer o seu, inadvertidamente, é que se gerou toda a celeuma. Nunca se ouviu falar de um terreiro com dois galos, fatalmente que o mais forte daria cabo do mais fraco, pela lei cruenta da natureza. 
O caso, isoladamente, nada de grave oferecia, e, de especial, apenas a hilariante balbúrdia que se formara. O que, paradoxalmente, o tornava sério e doloroso, era, uni-Ias, a intensa e recíproca amizade. Cada qual abdicaria, prazeirosamente, de seu direito, para contornar a situação. Porém, justamente, aí, é onde residia a dificuldade. Nenhuma queria ser a contemplada, por temer vislumbrar, na outra, o menor resquício de mágoa e, com isso, minar uma afeição que jamais sofrera abalos. E, agora, um simples galináceo estava a ponto de realizar uma tão inacreditável proeza. 
O impasse estava criado, e, à falta de uma saída honrosa, que a arribas contentasse, já assumia feição inquietante, porque o mal-estar, de tão sofreado, dava mostras de não mais ser contido.- 
Por fim, uma luz brilhou, naquela escuridão, desanuviando mentes e corações. Decidiriam, ainda que a contra-gosto, à moda do Rei Salomão, conferindo aos próprios contendores, a decisão de caso tão intrincado. A sentença, como se vê, final e irrecorrível, já era, antecipadamente, conhecida. 
E o fizeram, sem delongas, porque a aflição, que já reinava absoluta, tomara a si esticar, por conta própria, a enervante espera do desfecho. 
Com imenso pesar, colocaram os galos no terreiro, frente a frente, a ver, suspensas pela emoção, a qual dees caberia trono tão cobiçado e enturoso. 
E o que de menos se esperava, aconteceu. Entreolharam-se, reciprocamente, cada um de seu lugar, impassíveis, inertes, sem ação, na mais vergonhosa das covardias, ou, então, no mais convincente ensaio democrático. Não se sabe. O que resultou foi, tão só, o que se viu - o respeito mútuo, numa estranha e pacífica aceitação de convivência forçada. Certamente, ao compreenderem que cada qual teria sua vez, optaram, ajuizadamente, pelo que, em tais circunstâncias, Ihes pareceu de melhor alvitre. Mais valia, afinal, repartir, depois, lucros certos, que correr, em tal instante, riscos presentes e duvidosos. E, assim, o terreiro ficou mesmo com os dois galos; para espanto de todos. 
Esse fato, verídico e original, foi motivo de comentários, e muito deu o que falar, na redondeza. 
Porém, decorrido um tempo razoável, e quando mais desenvolvido estava o criatório, algo de imprevisto voltou a acontecer. Os rivais passaram a se estranhar, de modo definitivo, e o pacto, ou coisa que o valha, foi por terra. E com as rinhas constantes e violentas, não demorou muito e um deles foi definhando, até morrer. 
Tem toda razão o adágio popular: não há bem que sempre dure... 
Nessa Favela vim ao mundo, em 1925, tendo por berço um quartinho escuro, de fundo, dando para os lados Norte/Oeste, de uma velha casa de taipa. Foi, aí, onde passamos os melhores anos de nossas vidas. Mesmo depois da mudança, para a rua, nâo me afastava de lá, visto minha avó não nos ter acompanhado, permanecendo, na casa, heróica e teimosamente, sozinha. O filho Lucas, de 15 anos, seduzido pela vida, morava mais conosco que com ela. 
Desta avó paterna posso dar meu testemunho pessoal, pela longa convivência que tivemos. Era de fácil comunicação, enérgica, e de um edificante espírito de caridade. Suas portas nunca se fecharam a um pedido de ajuda. Sem que lhe fosse solicitado, costurava de graça, para os necessitados; deu moradia sem paga, a desvalidos, e trouxe crianças pobres para dentro de casa, criando-as, até a idade de adultas.  
Com o mesmo brilho e fervor do Barrocão, implantou o culto do Mês Mariano, ponto alto de sua devoção à Virgem Santíssima. Nossa casa, normalmente frequentada, não cabia de gente, nessas ocasiões. Pessoas de todas as idades, condições e procedências, a ela acorriam, numa magnífica demonstração de Fé, associada a uma bela mistura de calor humano. Foram tempos memoráveis, vividos sob o influxo da paz, da alegria e do trabalho, no meio de uma abençoada fartura. Como símbolo e testemunho, lá está, restando nossa velha casa, sólida e imponente, à beira de ser centenária. Juntamente com mais 5 hectares de terra, é tudo que nos sobra da antiga fazenda. Do alto de sua dominação, pode-se divisar, um pouco além, num quadro de real beleza, a progressista Itaporanga de hoje, e, logo abaixo, o imprevisível Piancó. Por algumas vezes, manso e embalando sonhos; por outras, impetuoso, medonho, espumando de raiva e destruidor, esquecido, talvez, de que não era esta sua missão. 
Não podendo, por mais tempo, permanecer em situação tão incômoda - ela na Favela, sozinha, e nós outros,• na rua - resolveu, por fim. em 1940, juntar-se a nós, em definitivo. 
Estou, ainda, a vê-Ia, nas peregrinações que fazíamos, com a Imagem da Padroeira, pelos sítios e capelas, angariando donativos para as obras da matriz, em companhia do saudosismo pe Nicolau Leite, instrumento nas mãos de 
Deus, e a quem jamais poderia agradecer, por tudo que de bom representou, em meu encaminhamento na vida. 
Aos 67 anos, acometida de cardiopatia, veio a falecer, após uma vida to da voltada para o Evangelho. O desenlace se deu no mesmo dia do aniversário do filho José, meu pai, a 9 de janeiro de 1948. Está sepultada, no cemitério local, em jazigo da família, à espera dos seus, para o dia glorioso da Ressurreição! 

sexta-feira, 6 de março de 2015

Resgatando Dividas - Parte 2


Inteligência Privilegiada

A tão insignes predicados vinha juntar-se uma inteligência muito acima normal, talvez de gênio. Foi um autodidata completo e um inventor nato. Solado do mundo e das ciências, tudo aprendeu por si, sozinho, materializando, com mãos hábeis, tudo o que sua mente prodigiosa concebia. Desse modo, fez-se carpinteiro, pedreiro, construtor, ferreiro, artesão, mecânico, técnico de engenho, curtidor, barbeiro, alfaiate e músico, entre outras aptidões. 
Era tudo o homem, não é isso de causar espécie? 
E, aqui, fica a pergunta inevitável: que teria sido, que futuro lhe estaria reservado, se tivesse tido acesso aos livros e à moderna tecnologia? 
Torna-se difícil até de presumir. No entanto, com real certeza, teria legado seu nome à posteridade. 
Todavia, não teve, sequer, o curso primário. Escola, só na vila, o que era mesmo que não haver. Alfabetizou-se, graças a um infortúnio. Aos nove de idade, morre-lhe a mãe, passando a residir com os tios, por ser o pai portador de certa deficiência mental. Duma feita, indo à vila do Triumpho, interior de Pernambuco, despertou vivo interesse do  vigário, que,  de  tanto insistir  junto ao 
tio que o levara, conseguiu dos responsáveis permissão para criá-lo e educá-lo. Pouco durou, no entanto, a mudança. Um ano, após, o pároco veio a falecer, provocando seu retorno à Serra Branca, mas, já sabendo ler e escrever, razoavelmente. 

Primeiro casamento

Nossa família descende, pelo que pude apurar, de dois troncos frondosos, bem diferentes. Um, de característica europeia, facilmente reconhecível: pele branca clara, olhos azuis e estatura acima da média. Seriam seus representantes maiores as famílias Granjeio e Amâncio Ramalho. Fixaram-se na Serra Branca, e adjacências, com segmentos em Bananeiras/PB, e interior do Rio Grande do Norte. 
O outro genuinamente nacional, procede do Brasil Norte, no “ouvi dizer” de minha mãe. Cravou raízes no Barrocão, ali formando clã numeroso, com estilo de vida fechado e rudimentar. 
Cerca de 20 kms separam esse sítio da Serra Branca, assim chamada, porque é como parece, vista, ao longe. Da serra, propriamente, se contam histórias interessantes, capazes de aguçar a curiosidade até dos menos crédulos. Certos fenômenos, que, lá, se verificam, são reais, ainda que não devidamente esclarecidos. Minha mãe, quando morava no Barrocão, viu, várias vezes, à noite, em companhia dos seus, um objeto luminoso, no topo da serra, que o pai denominava de o carneiro de outro, por seu brilho e formato. 
Lá, estive, onde conheci o agricultor Manuel Francisco, em cuja residência me hospedei, por alguns dias. A casa distância de uns 2 kms da serra, se muito, e nela mora, (caso ainda vivia) há cerca de 30 anos. Contou-me que via, com frequência, na estação invernosa, duas esferas de fogo, no lombo da serra, cruzando-se sem se tocarem. E, às vezes, desciam à estrada, bem defronte de sua residência, em idênticas evoluções, causando-lhe grande medo e emoção. Com o repetir-se, findou por se acostumar. Não obstante, ninguém o faria aproximar-se do pé da serra, após o entardecer. Eu mesmo constatei misteriosas inscrições, em pedra, além de outras coisas, merecedoras, a meu ver, de um “estudo” paleoarqueológico. 
Mas, voltemos ao que interessa - o casamento. Tudo começou de um fato corriqueiro. Entre 1886/1887, o então rapazola João Antônio, no intuito de conhecer parentes do outro ramo genealógico, desce a serra, em demanda do Barrocão, onde conheceu as irmãs Ana e Regina, que, sem o presumir, iriam mudar-lhe o curso da vida. Ana, na altura de suas 14 primaveras, e Regina, a caçula, com seus quatro aninhos. 
Em 1888, estava casado com a primeira. Ele, na casa dos vinte anos de idade, filho de núpcias de Antônio Romualdo com Luiza Malaquias, oriundos da Serra Branca. Ela, dentro dos quinze, filha de segundas núpcias de João Malaquias com Maria Joana, todos nascidos no Barrocão. 
Dessa união surgiram doze filhos. O primeiro, nascido em 1889, teve dois meses de vida; o oitavo e o nono morreram, ao nascer; o último, de 1912, com a mãe já paralítica, durou três semanas, apenas.
Eis, a seguir, em ordem cronológica, os nomes dos que se criaram. 
1890/1944 – Maria, que se casou com João Simplício (faleceu, em Itaporanga, 
em 1984), deixou os seguintes filhos: Rosinha / João S. Filho e 
José Simplício. 
1892          – Pedro Antônio, que se casou com Deolinda, morreu em 
Pindobaçu/BA, deixando viúva e os filhos Ana / Francisco e 
Raimundo. , 
1894/1951 – Águida (Fia), que se casou com Manuel Inocêncio (falecido em 
1953), deixou os filhos Maria/Ana/Cecília/José/Losmina/Lino/Maria das Neves/Adalgisa/Natalíóa e Celina. 
1896    – Jardilina, que se casou com José Marcolino dos Santos (nascido em 
1896, faleceu, no Recife, em 15.12.1965, cuja urna funerária se acha 
no ossuário da Matriz da Boa Vista, na praça M. Pinheiro) tem vivos, afora os sete que morreram, os filhos João e Raimundo. Este, casado com Maria José Simões Santos, deu-lhe os netos Maria Eneida e Gustavo Aurélio, e da neta Maria Eneida, casada com Newton Augusto Lima, tem os bisnetos Tatiana S.S. Lima e Augusto S.S. Lima. 
1898/1984 - Filomena (Filó), viúva de José Tavares (1900/1940), deixou as sete 
filhas Eliça/Loilda/Ecila/Elizabeth/Antônia/Elite e Edite 
1901/1984 - José Antônio (Dé), casou com Maria Matias e deixou os filhos 
Tica/Misa/Doninha e Pedro. 
1904/1984 - Manuel (Nélil, que se casou com Maria Teixeira, deixando os 
filhos Gerson/Dina e Dení. 
1906 Júlio Antônio, casado com Claudina, tem os seguintes filhos: Francisco/ 
Alaíde/Maria/ João/ Alzira/ Ana Maria/ Anália e José. 

Obs.: Ao concluir estas notas, em 10/86, permanecem vivos, como se vê, Júlio 
Antônio, residindo nas mesmas moradas do Barrocão, e minha mãe Jardilina, na Av. Pedro Américo, 101, Itaporanga. 


Vida na roça

A vida na roça, por contingências naturais, era, rotineiramente, simples e operosa. Decorria toda ela no criatório, no cultivo da terra, no amanho do gado vacum e no aconchego do lar. E, só, não havia mais o que fazer. Havia-o, apenas, a esperar, a chegada do inverno, com a perspectiva de dias melhores e de uma safra promissora. O homem do campo, não tendo como fazer provisões, obrigava-se a consumir, sem apelação e sem remédio, tudo o que, tão precária e laboriosamente, pudera guardar da colheita anterior. Por isso as chuvas eram tudo para ele, salvação e vida. Eram a única fonte de subsistência, bem como causa e efeito de tudo que dava fundamento e sustentação ao seu viver. Projetos e serviços, tratos e negócios, conversas e diversões, só em função delas acontecia. 
Por tais motivos, ali, mais do que em outra parte, o homem, não só parecia, de fato, um produto exclusivo do meio, sem o menor poder de reação, preso que estava, a um determinismo ecológico inexorável. Até o amor, tem suas próprias leis, lá se mostrava diferente, não ostentando força e a mesma galhardia. Comportava-se, aclimatava-se ou então se sublimava, que, de optativo, nada mais lhe subsistia acalentar. 
Desse modo, as trovoadas, longe de ser presságio de temporal, como de se supor, afiguravam-se-Ihe trombetas do céu, anunciando um festival de música e de alegria, e desencadeando o múltiplo processo das atividades agrícolas 
Ao clarear da barra, homens e mulheres já estavam a postos. Estas, para os variados afazeres domésticos: no curral, para a ordenha das vacas e das cabras, já, de véspera, chiqueiradas; nos tabuleiros, à cata de lenha e gravetos, para alimentar as trempes; no poço Roncador, para a lavagem da roupa; nas cacimbas do rio, enchendo as cabaças, afora os pertinentes aos cuidados da casa.
A eles era “o pesado” que cabia: a desmoita, a broca, o reparo das cerca e a limpeza do terreno, para a semeação. Preparada a terra e o plantio iniciado  o quadro se invertia. De penoso e desgastante, passava a suava e prazenteiro. E, como, para a gente simples da roça, só a esperança encurta as disâncias, lá estava ela, ali, palpável, à frente de todos, em pequeninas covas, à flor da terra, afastando o tormento da incerteza. E, mal caem as primeiras águas, tudo se transforma. A natureza desperta, repentinamente, de seu longo sonho, e com pejo de sua nudez desfigurada, se veste toda, e se engalana, cobrindo-se de flores e de perfumes. E eles, sem mais lembranças das canseiras e sofrimentos, riem todos, a valer, despreocupados e felizes, como crianças estimuladas. 
A aparente singeleza do quadro finda por nos levar a uma inquietante reflexão: ver uns, que de tudo precisam, com tão pouco se fartando; outros, que  nada carecem, nem com o excesso se bastando!... 
Mas, outras águas, que não as do céu, caíam, e com mais fertilidade, regando, generosamente, a terra semeada. Eram as vertidas daqueles corpos rústicos feito gotas, que, resvalando até o chão, nele se entranhavam sem demora porque tinham pressa de fecundação. Diferiam umas e outras, apenas, nas origens. As do alto, dádivas puras, e as de cá, frutos não simulados de holocausto humano. Mas, tendo ambas um mesmo fim sublime, integravam-se, sem esforço, perdendo, aí, as singularidades. 
Plantavam com extrema fadiga e suor, para colher com alegria, no dizer Livro Santo. 
O pôr-do-sol era o sinal de fim de jornada e de restauração das energias gastas. A mesa estava posta. Servida a ceia e ordenados os teréns da cozinha, todos se reuniam, na varanda, em volta do “pater famílias”, para a leitura dos textos bíblicos. Em seguida, meu avô como que se transformava em outro. Despindo-se de seu natural autoritarismo, colocava os menores ao colo e dava vez a todos, para as brincadeiras e as conversas informais. E chegada a hora do recolher, faziam-se as preces comunitárias, acrescidas de outras, em tom de saudações: a bênção, meu pai, a bênção, minha mãe - Deus te abençoi, meu filho.
No dia seguinte, era a mesma coisa, quase tudo se repetindo, às mesmas horas. Homens, mulheres e crianças indo e vindo, nas mesmas direções, num vai-e-vem contínuo e operoso, à semelhança de formigas. Alguém diria monótono e enfadonho um tal sistema de viver. Nada mais falso. A pureza de vida interior e o trabalho intermitente não davam margens a tristezas, apatias, depressões ou a rostos contrafeitos. De resto, não havia ocasião nem lugar para o eclodir de paixões violentas, porque seu fragor não Ihes penetrara, ainda, os corações. Cada um vivia em perfeita paz, consigo mesmo, com os outros e com a natureza. Afinal, as necessidades básicas eram atendidas, quase nada afetando os anseios, em demasia limitados. E, facilitando o “rnodus vivendi”, homem e terra se entendiam e se completavam, com mútuas e proveitosas doações. Ele, oferecendo-se, com o que tinha e com o que podia - muito suor e cuidados. E ela, devolvendo-lhe, em frutos, o que dele recebia, propiciava o indispensável equilíbrio à manutenção de tão benéfica harmonia. E, com isso, dava-se ele por satisfeito. A não poder ser feliz, contentava-se, numa atitude, de veras, sábia e realista. Que a felicidade, cá, na Terra, já ninguém o desconhece, é pura miragem, foge-nos, tanto mais de repente, quanto mais depressa dela nos acercamos. E, para maior desgraça nossa, quando se vai, não se vai, de todo, deixa-nos, ainda, de contrapeso, uma substituta cruel e indesejável - a dolorosa frustração do vazio!  
Perdôem-me a excursão despropositada. 
O Barrocão era um mundo diferente, onde o inverossímil fez morada. O verdadeiro e o fictício pareciam coexistir, tranquilamente, como se partes de uma homogeneidade. Lá, o real e o irreal caminhavam juntos, de mãos dadas, numa parceria quase intencional de querer confundir o própria Lógica, tornando-a, desautorizada. Senão, vejamos um pouco.  
No que se refere ao sossego dos lares, não havia o que temer. Naquele ambiente, a ordem, a segurança e a moralidade eram totais. E não poderia ser de outra maneira, uma vez viverem as pessoas mergulhadas, o tempo todo, em paz intensa e duradoura. E as fisionomias, falando por si mesmas, o atestavam. De tão serenas e imperturbáveis, eram o reflexo natural dessa calmaria e formal desmentido à existência de quaisquer conflitos interiores. E como imaginar desordem e agitação onde não vicejava a inveja, a mentira, o ciúme, a maledicência, o roubo e o crime? Dir-me-ão, no mínimo, que estou sendo temerário, com tais afirmações, não é o homem o mesmo, em toda parte? Reconheço-o e confesso. Mas, não tenho escapatória, por ficar rendido ao testemunho de minha mãe que, sabidamente, nunca teve pacto com a mentira, e cuja memória e lucidez a tornam consistente e merecedor de fé. Se ocorreu algum daqueles desregramentos, não foi ela sabedora, e nem pessoa da família, que nenhum motivo e condições teriam de esconder fatos tão irresistentes à curiosidade humana. No entanto, para não cair na insensatez e na utopia, podemos presumir que houvesse, quando nada, nos corações, acolhida a tais sentimentos e fraquezas. Se os houve, com toda certeza que resta subcentes, por não poderem aflorar, à mingua de toda luz e calor. Essa a presunção mais aceitável, pelo menos enquanto meus avós viveram, porque, ali, eles, era incrível como o Demônio tinha rédeas curtas!
E a inocência, como andava ela, por lá? O que descobri, nesse sentido, notadamente, entre as mulheres, é algo de estarrecer. Minha mãe conta o impacto causado por uma prima que, às escondidas Ihes falara de namoro. A casa quase ruiu, ante a explicação, pois, não sabiam o que fosse, a começar pela palavra. E isso era nada, ao que se segue. Ela assevera - agora, já sob juramento - que ignorava, como todas as irmãs, o que era e como se dava a procriação. Pensavam, candidamente, que a vida de casado era a mesma de solteiro, com a única diferença da cohabitação. Bastava o padre casar os nubentes, que os filhos brotariam, automaticamente, sacramentalmente, sem qualquer cooperação paterna!... 
Convém enfatizar que não estou romanceando, nem percorrendo caminhos de ficção, e, sim, me atendo, tanto quanto posso, ao que me foi revelado pela fonte inquirida. De igual modo que o leitor, sinto-me espantado, frente a coisas tão insólitas e surpreendentes. Contudo, apreciando-as, com mais vagar, à luz das circunstâncias, minha incredulidade se dilui. A vida já é, em si, um tremendo mistério, corno tudo mais que a envolve. De que modo, então, se ousar negar, liminarmente, fatos discutíveis, sob o mero argumento de não parecerem possíveis? Porventura, não, já, é isso, grande imprudência e presunção maior? E foi, exatamente, por assim se afigurarem, incríveis, que me aventurei ao desafio de sua divulgação. Ao menos por esse motivo, seja eu perdoado, é o quanto peço. 
Meu avô tinha uma casa na rua (ainda, hoje, é assim que se diz, por lá, quando se quer referir à cidade) que, normalmente, só duas vezes, ao ano, abrigava a família - pelo Natal e na Semana Santa. Para as moças, eram os únicos contactos com a civilização e, quase só, visuais, ante a constante vigilância paterna. As outras festas religiosas - S. José, Mês de Maio, S. João e S. Pedro - eram comemoradas, intensamente, no recinto do lar. De todas, pela pompa, beleza e devoção, sobressaía-se a do Mês de Maria. Meu avô fazia um altar de madeira, na largura da sala, encimado por um arco, todo coberto de pano e recoberto de flores. Na véspera de abertura das festividades, atava-se a bandeira azul e branca à ponta do mastro, deitando-o sobre os ombros de dois adultos, com uma criança sentada, ao meio. Formava-se a fila, atrás, e, ao entoar de benditos, davam três voltas, ao redor da casa, para fincá-Ia, depois, no meio do terreiro. Soltados os fogos, iam todos se comprimir, no interior da saIa, onde o Oratório, cheio de santos, no centro de um altar repleto de flores, de velas e de castiçais, era o ponto de convergência obrigatório dos olhares e atenções. E não fosse por falta de protetores que se deixasse de rezar. Havia­os para todos os gostos e devoções. 

Avizinhando o momento, por todos percebido, enchia-se a sala de um silêncio profundo e espontâneo. Incontinenti, lado a lado, meus avós dirigiam-se ao altar e abriam o Santuário, colocando imagens à frente das duas portinholas, guarnecendo-as, tendo, ao fundo, a Imagem do Senhor. Voltados a seus lugares, meu avô iniciava o culto, com atos de meditação, intercalados de cânticos. Em seguida, recitava-se o terço e cantava-se a Ladainha, pondo fim às solenidades. 
No último dia do mês, e com o mesmo ritual de abertura, meus avós fechavam o Oratório, ao som do bendito de encerramento: Fechemos as portas/para guardar Jesus/ com os braços abertos/ cravados na Cruz/Adoremos a Jesus/ veneremos a Santa Cruz. 
Uma gande fogueira a todos aguardava, no terreiro, para a queima dos fogos e o milho assado e, a cujos pés, jovens e adultos se tomavam por padrinhos e afilhados. 

quarta-feira, 4 de março de 2015

Marcas de uma Raça - Jonas Leite Chaves


As marcas da personalidade de Jonas Leite Chaves

Por várias razões fiquei muito contente ao ser convidado para escrever aqui algumas palavras sobre as Marcas de uma Raça, da autoria de Jonas Leite Chaves, ilustre paranaense por adoção, todavia paraibano de nascimento e, nas origens, um destacado membro da frondosa Família Jenipapo, cujos representantes mais remotos do Brasil foram pioneiros da colonização do Vale do (Rio) Piancó (sertão paraibano), particularmente da fundação da tradicional Misericórdia (atualmente cidade de Itaporanga).

Diga-se desde já que, desde já, que o seu convite, a mim feito, seja desnecessário, levando-se em conta as exuberantes qualificações desse autor, dispensadores de qualquer preâmbulo deste tipo, devo confessar que a sua escolha me trouxe muita satisfação porque decorre, quero crer, de uma recente e feliz reencontro com o meu amigo Jonas Leite Chaves na capital, depois de várias décadas sem nos vermos. Doravante espero poder desfrutar de forma mais assídua e efetiva da versátil proficiência intelectual de Jonas Leite Chaves. Desfrutar seus inúmeros  e louváveis atributos menciono apenas alguns: ele é um memorialista de escola, um genealogista criterioso e um  historiador dotado de respeitável rigor metódico, o que lhe valeu ser acolhido como Membro Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná, além de ser um cineasta de merecimento. 

O fato é que esse, atualmente, curitibano por adoção, participante da pujança desenvolvimentista do Paraná – aliás, a terra de minha esposa e o berço do meu filho - jamais descurou dos seus longínquos sentimentos telúricos, das suas origens nordestinas, do seu Vale do Piancó, da sua antiga Misericórdia no sertão paraibano, enfim da sua prolífica e proeminente linhagem familiar, ou seja, a Família Jenipapo.

Dessa maneira, como quem cuida muito, o autor agora reuniu harmonicamente, na mesma obra, suas características de memorialista de genealogista e de historiador para nos oferecer as valiosíssimas Marcas de uma Raça. Aí ele já alerta o leitor, de forma muito oportuna, para o fato de que essa obra “mais do que um livro de Memória, é um instrumento de resgate [inclusive documental] da verdade de um fato judicial histórico” de natureza criminal em que foram vítimas de uma perversa perseguição política, vários membros da Família Jenipapo nos anos vinte do século passado. Dentre os vários indiciados nesse processo forjado, o então Padre (depois Monsenhor) Manoel Gomes da Silva, submetido que foi a um julgamento recheado de vícios, do qual saiu condenado. 

Tamanha injustiça só foi remediada em segunda instância mediante a atuação dos advogados Guilherme Gomes da Silveira (coincidentemente o avô materno de quem escreve estas linhas) e Irineo Jofilly. 

Adicionalmente, o autor deste livro desenvolveu ainda uma biografia minudente (e ilustrada) do Monsenhor Manoel Gomes da Silva, bem como a do seu irmão mais moço, igualmente famoso ou até mais, o médico e político Dr. José Gomes da Silva que governou a Paraíba nos anos quarenta do século XX. 

Em suma, Marcas de uma Raça é obra que enriquece a historiografia respeitante à Paraíba e creio que também deve encher de orgulho a produção historiográfica do Estado do Paraná, terra onde o seu autor se radicou. 

Finalizo agora dizendo ao meu amigo Jonas Leite Chaves que ele merece os parabéns por esta importante obra, porém, mais do que ele, estão de parabéns os seus leitores. 
Da antiga Cidade de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), 28 de julho de 2009 (no 424, ano da sua fundação) 

Guilherme Gomes da Silveira d'Avila Lins 
Professor Emérito da UFPB, Membro da Academia Paraibana de Letras, Membro da Academia Paraibana de Medicina e do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano.

Vontatos com o autor
jonaschaves@terra.com.br
Fones (041) 3223.0567 / 3322.1718
Jonas Leite Chaves

SINOPSE

Marcas de uma Raça resultou de um trabalho em que o autor pretendeu alcançar, de alguma forma, diferentes segmentos interessados em conhecer e pesquisar aspectos locais da História da Paraíba. No capítulo Linhas do Tempo o leitor tem acesso à estruturação genealógica da família Jenipapo a partir da chegada do português Antônio Fonseca Gomes ao vale do rio Piancó, por volta de 1750 - encerrando na quinta geração.  Também, na continuidade encontra um sumário da montagem de todo o “Processo Político da Família Jenipapo”, a partir da origem em Misericórdia, a condenação dos acusados, a transferência para a Casa de Detenção na capital do Estado e a íntegra do Recurso interposto pelos advogados Guilherme Gomes da Silveira e Irineo Jofilly ao Tribunal de Justiça da Paraíba, bem como o acórdão da Corte de Justiça e o arquivamento do processo. Tudo transcorrido nos anos da década de vinte, do século passado. No capítulo seguinte vem um estudo bibliográfico do Monsenhor Manuel Florentino Ferreira Gomes da Silva, sua ida para os estudos, em Fortaleza, capital do Estado do Ceará, bem como as profundas consequências benéficas para toda a família. Logo em sequência o autor traça o perfil biográfico do Dr. José Gomes da Silva, sua atividade como profissional da medicina humana e de sua profícua participação nas atividades políticas na Paraíba e no país, começando com seu retorno ao sertão paraibano. A narrativa de sua vida política começa com sua eleição para prefeito de sua terra natal, Misericórdia, em cujo período de mandato aconteceu a Revolução de 1930, tendo o Dr. José Gomes liderado no Vale do Piancó a campanha que levaria Vargas ao poder. Também, no mesmo capítulo o leitor tem acesso à intensa vida do biografado como deputado federal constituinte e seu período como Interventor Federal do Estado da Paraíba, ocasião em que presidiu a eleição democrática para governador, em que foi eleito o Dr. Osvaldo Trigueiro, cuja posse encerrou os últimos resquícios do Estado Novo implantado por Getúlio Vargas, em 1937.

Jonas Leite Chaves


PREFÁCIO

Coube a mim o privilégio de prefaciar esta importante obra de Jonas Leite Chaves. Muito mais por deferência a minha família, especialmente ao Monsenhor Manuel Florentino Ferreira Gomes da Silva e Dr. José Gomes da Silva, nossos inesquecíveis Padre Gomes e Zé Gomes. 

O conhecimento da saga da família Jenipapo, que didaticamente o autor enfoca, reveste-se de muita importância para o saber e a pesquisa do cerne humano itaporanguense, ou misericordiense, como prefiro, porque conduz os descendentes da numerosa família a cruzar-se com suas próprias origens no entrechoque imaginário do passado com o presente, que só a memória permite. 

Em Marcas de uma Raça, obra escrita em linguajar de características telúricas, o autor faz um sumário da genealogia de grande parte da família Jenipapo. Iniciado a partir de seu protopatriarca, o português Antônio Fonseca Gomes, cujos indícios sobre sua escolha pelo Vale do Rio Piancó levam a acreditar que se deveu à coincidência de sua chegada ao Brasil e às notícias da criação da Vila de Piancó, em 1748. Ali teria ele chegado por volta de 1750, provavelmente aos 20 anos de idade. Essa cronologia estabelecida pelo autor parece de todo acertada quando se conta como válido o espaço-tempo comum de 100 anos para o surgimento completo de três gerações. 

Aliás, tomando-se como parâmetro o nascimento em 1860 de seu tataraneto, pai de Monsenhor Manuel Florentino Ferreira Gomes da Silva e do Dr. José Gomes da Silva, Horácio Gomes da Silva, poder-se-á montar uma escala cronológica decrescente e fixar o nascimento de sua bisneta Alexandrina Gomes, mãe de Horácio, em torno do ano de 1830. Na continuidade e obedecendo à mesma linha de raciocínio, o seu neto Severino Gomes da Silva certamente nascera no ano de 1800, e o filho Alexandre Gomes da Silva, pai de Severino, teria nascido por volta de 1770. Isto deixa crer que Antônio Fonseca Gomes, raiz primeira de toda família Jenipapo, em terras brasileiras, teria nascido em Portugal, em Aveiro, em torno de 1730. Isto dá à família Jenipapo quase três séculos de existência. 

Muito embora, como o autor mostra claramente em sua narrativa, o objetivo de sua monumental obra é dar ciência do que foi o rumoroso processo judiciário movido contra a família Jenipapo e levar ao leitor aspectos biográficos do Monsenhor Manuel Gomes e do Dr. José Gomes. Mesmo assim, Jonas Leite Chaves, num lampejo de versatilidade, esmerou-se também na precisão matemática de números, afim de permitir o levantamento de dados históricos, conforme o faço aqui, ao tempo em que realinha uma série de informações distorcidas sobre a origem de Misericórdia, hoje Itaporanga, e à chegada de Alexandre Gomes da Silva, quando tudo começou. 

O relato dessa saga, narrada por Jonas, somente agora permitiu me entender uma declaração de seu irmão, Dr. Francisco Leite Chaves, eminente advogado internacional. O fato, veiculado nacionalmente pela imprensa da época, em cruzada política que o Dr. Leite Chaves liderou no Paraná, como candidato a senador, é que pretenderam desqualificá-lo sob a alegatória de noviço na política, ao que Leite Chaves retrucou exibindo uma experiência genealógica de quatrocentos anos de lutas políticas, a partir de sua “tribo” original. Eleito senador em 1974 e empossado no início de 1975, em um Estado com profundos preconceitos contra nordestinos, exerceu com brilhantismo o mandato de senador durante doze anos. 

O genealogista e historiador, Jonas Leite Chaves com esta obra deixa claro, no entremeio do texto, sua intenção de, em tempo futuro, editar um novo título sobre a genealogia completa da família Jenipapo. 

Retomando aqui a trilha do autor sobre o objetivo maior de sua obra, diria que na família Gomes da Silva descendente de Alexandrina e Cazuza, quem deu o primeiro passo para despertar sua juventude para a educação formal foi Araponga, conforme narrativa do autor. 

Araponga, filho de João Florentino Ferreira Gomes, levou para o Seminário de Fortaleza o primo Manuel Florentino Ferreira Gomes da Silva, que para muitos de nós do ramo Gomes da Silva é o começo de tudo o que continua acontecendo, desde então, por menor ou maior que seja a importância. Isso se passou em tempos tão difíceis que em suas perorações o genial Alcides Carneiro sempre se referia aos desbravadores daquela época como “os filhos das raças antigas dos valentes”. 

Concluindo seus estudos e desenvolvendo seu sacerdócio e a importante função de educador, conforme narra o autor, o Padre Gomes foi transferido para o Rio de Janeiro, para onde levou seus irmãos José Gomes da Silva e Manuelito Gomes da Silva; os sobrinhos Francisco, Horácio (meus irmãos) e José Gomes Sobrinho; os primos Praxedes Pitanga e Abdias Silva, atitude essa que teve uma grande influência no destino de muitos dos descendentes de Horácio Gomes da Silva e outros do clã Jenipapo.

O autor de Marcas de uma Raça, Jonas Leite Chaves, como eu, é parte integrante da sexta geração oriunda de Antônio Fonseca Gomes e é dotado de um talento que extrapola em muito a muitos de nós. Neste instante fico sem saber, silente, na tela do computador, se converso com o engenheiro agrônomo, com o poeta ainda na adolescência em Itaporanga, o professor em ciências agronômicas e econômicas, autor de Uma Política Agrícola para o Desenvolvimento da Paraíba; com o professor universitário (ESS-UFPB) de Pesquisa Social e Sociologia Rural, com o jornalista profissional, com o membro fundador da Associação Brasileira de Shopping Centers - ABRASCE (Rio de Janeiro), com o novelista de rádio dos anos cinqüenta, com o detonador do processo moderno de industrialização da Paraíba, produzindo máquinas e implementos agrícolas; ou se converso com o político, com uma trajetória de vitórias e destinação nessa atividade por todos Exerceu a política, mesmo com a missão partidária recebida do seu irmão, mais de acordo com seu espírito público e vocação nos anos trinta e quarenta, fazendo do ofício uma atividade direcionada em sentido único, a decência. Nunca foi um político profissional no sentido amplo. Em grande parte de sua formação teve uma influência muito grande e rica de ensinamentos do Monsenhoro Gomes na sedimentação de um caráter que o guiaria em tudo e durante toda vida. 

Meus contatos mais aproximados com o Dr. José Gomes se deram a partir de meus nove anos de idade, quando me levou para junto de si e me constituiu em uma espécie de secretário pré-adolescente, em Itaporanga, influência essa que me manteve relativamente próximo da vida e dos fatos políticos até hoje, pelo menos para estar sempre alerta quanto às suas consequências. 

Zé Gomes era a expressão do político, cuja permanência nessa atividade seria breve, uma vez que a rigidez de seu caráter impunha-lhe ver na política não uma arte, como a transformaram e como Aurélio Buarque de Holanda prefere definir o verbete. Para Zé Gomes a política era um ramo das Ciências Sociais com uma única finalidade, servir (Non ministran sedministrare). Como o Padre Gomes, viveu a vida de todos nós. Regozijou-se com nossas vitórias e sofreu nas derrotas. 

Finalmente, o Processo, cuja trama, marchas e contramarchas o autor expôs documentalmente, sem em nenhum momento pretender emitir juízo de valor, interessado apenas na mostra fiel dos fatos, igualmente como se deram, o que faz de sua obra uma fonte honesta de pesquisa para quem pretenda amanhã aprofundar-se com novas prospecções em busca de mais informações relevantes sobre a história dessa grande família e das origens de Misericórdia. O autor foi sábio ao transferir ao leitor a oportunidade de medir e avaliar o quanto a mesquinhez, incipiente da política de então, foi capaz de induzir ao perjúrio. 

Amilton Gomes da Silva 



INTRODUÇÃO

Marcas de uma Raça, mais do que um livro de Memórias, é um instrumento de resgate da verdade sobre um fato judicial histórico, embasado no chamado Processo Político da Família Jenipapo, ocorrido na década de vinte, na antiga Misericórdia. 

Não há dúvida de que a justiça paraibana teria escrito uma página equivocada em sua história se, em segunda instância, no Tribunal de Justiça da Paraíba, não tivessem prevalecido o bom senso, o espírito de justiça e a competência profissional, acatando o recurso de contestação dos advogados de defesa da família Jenipapo, lrineo Joffily e Guilherme Gomes da Silveira. 

Em trabalho de alto conteúdo jurídico e tecnicamente correto, através de ricos e claros argumentos, fulminou, uma vez por todas, um processo eivado de erros, vícios e vieses judiciais, carregado de parcialidade, apoiado em uma “política menor”, ferindo a tradição dos poderes constituídos estaduais paraibanos. 

As atuais e futuras gerações da Paraíba, notadamente de Itaporanga, terão uma fonte viva e completa para avaliar corretamente o elevado espírito público e o comportamento moral de nossos antepassados, homens probos e trabalhadores, que sempre lutaram pelo desenvolvimento de sua terra. 

Não é à toa que a antiga Misericórdia, sempre marcante na história da Paraíba, por suas lutas em prol do progresso, coragem e dedicação de seus filhos, mostra-se como a atual Itaporanga, figurando entre as primeiras cidades do interior paraibano, com o maior índice de universitários, nos mais diversos setores de graduação, pós-graduação, mestrado e doutorado, ligados a várias atividades humanas. 

Mesmo não sendo uma preocupação do autor, oxalá possa este título compor o acervo de obras editoriais de bibliotecas, contribuindo bibliograficamente, de alguma forma, em futuras pesquisas, no sentido de se aprofundar o conhecimento de fatos históricos ainda hoje presentes no cotidiano do locus, palco dos acontecimentos relatados. 

Na INTRODUÇÃO desta obra, que se inicia registrando: “tudo começou... “, vê-se logo que os fundadores de Misericórdia, sob a liderança do intrépido Alexandre Gomes da Silva, certamente sonhavam com uma cidade, como a atual Itaporanga, hoje considerada a capital econômica, social, cultural e política do vale do Piancó.

Como até ficou demonstrado, já existe farto material para se escrever a genealogia da Família Jenipapo, que é um desejo de todos do clã, e que esta obra seja concluída, completando o trabalho e esforço de Maria da Paz Gomes Silvino e Maria do Socorro Chaves, que fizeram a primeira tentativa. 

O autor planeja executar essa tarefa - com o apoio de muitos interessados - que somente será possível mediante o esforço comum dos vários ramos da Família Jenipapo ao emprestar as suas devidas colaborações, para que sejam evitados furos e falhas, com omissões de nomes de integrantes da família Jenipapo, nas linhas ascendentes e descendentes, alcançando, assim, as bases fundamentais indispensáveis num trabalho desse gênero literário. 

Este trabalho se estende apenas até à quinta geração por ter como objetivo principal apenas situar os nossos biografados (Mons. Gomes e Dr. Zé Gomes) no contexto deste livro. Os registros das gerações seguintes só poderão ocorrer com a realização da geneaologia de toda família Jenipapo, obra que oportunamente pretendesse concluir. 
No capítulo LINHAS DO TEMPO deste trabalho, estão os fundamentos principais de toda a descendência do português Antônio Fonseca Gomes, que chegou ao Brasil, vindo de Portugal, nos idos de 1750. E é daí que teve início a grande e tradicional família Jenipapo. 

Jonas Leite Chaves

terça-feira, 3 de março de 2015

Curso de Música no IFPB-Itaporanga-PB

Por Sandoval

Olá, como filho e músico de Itaporanga (professor de música - UFPB), peço a todos para nos ajudar a colocar no futuro IFPB em Itaporanga o curso de música superior ou técnico, considerando o grande número de músicos na região e os que hoje estão trabalhando com música no Brasil.

Obrigado

Publicado em outubro de 2011

domingo, 1 de março de 2015

Vergonha Publica em Itaporanga

No dia do funcionário publico os funcionários dos PSF de Itaporanga-PB não tem motivos para comemorar, afinal estão há 3 meses sem receberem salários.e o que os envergonha é o descaso dos gestores que não dão se quer uma explicação plausível para tal situação.
Os funcionários estão sendo tratados com tamanho desrespeito e isto esta atingindo diretamente a população, pois sem receber seus devidos pagamentos os PSFs estão em iminência de realizar mais uma greve no município.
 
Os gestores não estão dando a menor importância para os compromissos que os funcionários têm que pagar. Quantos estão pagando taxas de juros altíssimas por estarem com seus pagamentos bloqueados mesmo estando em seus postos de trabalho diariamente, mais enquanto os funcionários então preocupados com suas dividas os gestores estão pedindo paciência para aguardem mais 30 dias. Será que na cabeça dos gestores, os funcionários que mantêm de seus salários são obrigados a suporta tal humilhação? Pensem nisso e vejam quem assume o poder desta cidade!!!
 
Nota: Em reunião realizada com o prefeito no dia 27/10 do ano corrente o mesmo se negou a negociar qualquer pagamento e os funcionários, mais uma vez, foram tratados com descaso.

blog do Vereador Herculano Pereira em setembro de 2011


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Resgatando Dívidas - Um livro de Raimundo M. dos Santos

DICATÓRIA 
Este livrinho é dedicado à memória de meu pai, cuja grandeza, em vida, se ocultou.

RESGATANDO DIVIDAS
LIGEIRAS EXPLICAÇÕES

Não era propósito meu fazer o que fiz, e mover-me a tanto, confesso, não foi pelo natural impulso do querer, que nunca existiu, e, sim, por um outro, que me tornou imperativo, o inarredável sentimento da gratidão. O que ouvi de minha mãe, durante anos, deixou-me fascinado, e relegar ao esquecimento,o que de mais belo há, em vidas humanas, além de injusto, em si, em mim, é, de todo, inescusável. 

Com semelhante convicção é que me decidi ao sacrifício, ao não achar, por perto, quem o pudesse ou se dispusesse a aceitá-lo. Espero, porém, contar com a benevolência dos caros parentes, aos quais me dirijo, por não ter podido apresentar algo mais substancioso e melhor, conquanto muito o tentasse. Deficiências próprias e fatores alheatórios impediram-me de atingir o que, em tal caso, seria de se esperar. Antes de tudo, era tarefa para poeta ou escritor. Só eles, que sabem das coisas, as dizem com real proveito e elevação. E o responsável por estas notas, não sendo uma coisa nem outra, em momento algum alimentou a pretensão de vê-Ias cair no domínio público, conhecedor, que é, de suas limitações. 

Por seu reduzido alcance, são destinadas, como visível e de manifesta compreensão, aos descendentes e familiares de tão maravilhosos avós e tão excepcional sacerdote, numa pálida tentativa do resguardo de suas memórias, ao se fazerem dignos da admiração geral e, de modo específico, do afeto e veneração de seus consanguíneos. 

Com relação a parte da pesquisa, numerosos foram os empecidos, e quase nada os resultados, bem se vê. No entanto, razões maiores, e não lucros, foi o que tive em mente, na apresentação de tão insignificante trabalho. E, não por eles, evidentemente, mas, por elas, é que me sinto, desde logo, gratificado. Contudo, nada mais de concreto poderia mesmo ter acrescentado, pela absoluta falta de um instrumento hábil, ou de outra fonte qualquer de informação. Pessoas, datas, fatos e acontecimentos narrados, são frutos exclusivos dos depoimentos - seguros e coerentes, é bom frisar - de quem, dotado de uma memória vigorosa, foi parte integrante e visual de tudo que se conta, minha mãe. 

No que tange a deduções e juízos pessoais, que tirei e emiti, acerca dessas mesmas personagens, cada um julgue como melhor lhe pareça, que, eu, “cá do meu canto”, não o poderia ter feito, diferentemente. Pois, de tudo que vi, a não me deixar dúvidas, foi essa a impressão que me ficou. 

Por último, meu preito de profunda gratidão e de amor filial a esta mulher admirável, e minha mãe, Jardilina, possibilitando a pesquisa, e, mais que tudo, por me ter lançado no coração, desde o nascer, a semente da Fé. 

Recife, 12/86.
R.M. Santos 

O BARROCÃO

No Vale do Piancó, sertão médio da Paraíba, separando as atuais cidades de Boa Ventura e Itaporanga, *estende-se um baixio de terras férteis e dadivosas, cortadas e banhadas, periodicamente, pelo Rio Piancó, qual um novo Nilo, a fecundar-lhe as margens, permanentemente. É o sítio Barrocão, equidistante uns 12 e 15 kms, respectivamente, das mencionadas povoações. A esse tempo, pouco habitado, com suas casas de taipa afastadas, umas das outras, sem estradas, e desprovido de meios de comunicação eficientes com o mundo exterior. As veredas eram as únicas vias de acesso às vilas circundantes. 

Ali, em sua maioria, bem longe de toda civilização e, em estado quase semi-primitivo, nasceram, viveram e morreram meus antepassados. 

No começo da primeira década deste século, a chefia política do lugar repousava em mãos de meu avô materno, João Antônio dos Santos, quando lhe foi outorgada a Comenda de Tenente da Guarda Nacional. **Tal patente e distinção era, na verdade, um meio de que se valia a Corte Imperial para, de modo efetivo e não oneroso, entre outras atribuições, dar guarnecimento a nossas fronteiras internacionais e fazer sentir sua presença em regiões longínquas, pouco acessíveis à atuação do Poder Central. 

Verdadeiramente, porém, para tanto dela não precisava, e sua concessão em nada veio aumentar-lhe o prestígio, junto aos seus, nem lhe dar dimensão à autoridade. Já o detinha e já a exercia, de fato e de direito. Não em decorrência de atos solenes e formais, senão de outros, não escritos, apenas consentidos e, mais por isso, mais fortes e duradouros, porque gravados em corações. 

Sua retidão de caráter, honestidade a toda prova, elevado espírito de justiça e um altruísmo incomum, a que se acresciam singulares dotes de inteligência, é que o faziam credor das honrarias. Uma marca era, nele, significativa: a de advogado intransigente e protetor das viúvas desamparadas. Todavia, a prova maior de sua grandeza de coração e de amor ao próximo, ficou evidenciada, de modo sobejante, ao eclodir o flagelo de 1915. Seus celeiros ficaram vazios. Amparou e supriu os que lhe vieram bater à porta, e a quantos encontrou, pelo caminho, carentes de ajuda e socorro. E, se alguns, premidos pelas contingências da fome ou do êxodo, vinham oferecer-lhe bens a venda, quando os comprava, só o fazia pelo justo valor, conquanto ofertados por preço aquém do merecido. 

Praticamente, ele era tudo, em seu diminuto território. Não só por tão excepcionais predicados, como pela natural detenção daqueles poderes de época, inerentes ao munus político. Além de patrão, acumulava funções de juiz, de delegado, e até de ministro do culto cristão, como católico autêntico, que era. 

* A primeira chamava-se, então, São Boaventura; a segunda, Misericórdia. 
** A República a manteve, até sua extinção, por desprestígio, no Governo Hermes da Fonseca, já sob a denominação de Milícia Federa 

E como sua visão ia aonde as outras não chegavam, estava sempre na dianteira, abrindo espaços, determinado, sem se perder, qual um visionário pleno de obstinação. Desnecessário é dizer-se que, ali, nada de importante se operava, sem seu conhecimento. Tudo via, tudo ouvia e tudo decidia. E a consequência lógica, não podendo ser alterada, teria de ser uma só: todos os problemas morriam nele. 

Contudo, ainda que conservando toda essa autoridade, não a manejava ao modo dos coronéis e senhores de engenho. E nem o saberia fazer, que não era esse o seu feitio. Faltava-lhe gosto para o posto. Como errôneo seria pensar que a força dessa autoridade tivesse algum respaldo no mando da força. Era bem outro o seu suporte. Sempre fora perfeitamente capaz de prescindir de “cabras”, para seu serviço ou segurança pessoal. Nunca os teve. E, para quê, se jamais grangeou um só inimigo? Não se alimentando, por vontade própria, da sedução do poder, por índole é que não seria um déspota - coisa, no entanto, que só de si estava a depender. Ninguém o impedia, e as circunstâncias até que isso conspiravam. Já era um verdadeiro gigante, em terra de indiscutíveis pigmeus e, de tanto os avantajar, parecia ter-lhes perdido a similaridade. 

Entretanto, uma posição tão superior não o fazia distante dos seus e, tão pouco, os embaraçava, a cujo serviço fora posta. Muito ao contrário, atuava como autêntico aglutinador do bem comum, ainda que, a permeá-los, tão acentuado desnível. 

Por tantas razões, não havia como pudesse acariciar devaneios de prepotência. Forçosamente, teria de se reconstituir, no todo, porque, em mente tão desafeita a recuos, não iria caber, de certo, a ignomínia da traição. E que mais poderia advir, afora isso, se, em tão grande coração, fomentassem sonhos tão baixos e enganosos? 

Tal ilusão não lhe passou, sequer, pela cabeça, que não se deixou tentar, por muito saber o que queria. 

E, assim, entre a mesquinha veleidade do arbítrio e a elevada grandeza do altruísmo, não chegou a perder tempo na escolha. Fez-se servidor de seu povo, e conselheiro, porque, muito embora não tenha tido consciência da realidade, nascera, de fato, para guiá-lo a seu verdadeiro destino, preservando sua Fé e seus costumes. E o fez, sem mais nada considerar, anuindo, simplesmente. 

Conquanto, no meio da coletividade, fosse essa sua postura, dentro do lar ia além de toda conveniência, era um disciplinador atento. Cônscio de sua responsabilidade pessoal intransferível, não contemporizava com o erro e nem fazia vista grossa às menores falhas. Tudo sofria sua onipresença. Porém, mesmo encarando, com tal seriedade, essas obrigações, jamais perdeu o senso do equilíbrio. De há muito, acima delas, a todas ofuscando e governando, colocara o amor à família, traço maior e proeminente de sua individualidade. Mas, valeu a pena o sacrifício, pois, se a nenhum dos filhos transmitiu seu carisma ou o fulgor de sua inteligência, deixou a todos, não obstante, herança maior: a honradez, a inteireza de caráter e o amor ao trabalho. 

Tantas qualidades, num só homem, já o sobrelevariam a muitos, em qualquer parte. Mas, possuía uma outra, que parecia não ser encontrada em nenhum outro. Era homem de singular afirmação. Quando dizia uma coisa, nada e ninguém mais o demovia, era inútil tentá-to. Sua palavra era uma só: sim, sim; não, não. Não comportava alternativa. E tal proceder, já purgado da eiva da ostentação nenhum esforço lhe demandava, por seu estreitamento com a verdade. Era, só, fruto natural e solene dessa aliança, conquanto, para muitos, motivo de admiração e embaraço. Daria mesmo gosto de vê-lo, em momentos, assim! 

Meu filho! - diz minha mãe, em seu linguajar típico - nunca vi coisa igual, está para nascer outro, foi primeiro sem segundo! 

Releve-se todo o embevecimento filial, que, ainda assim, nada lhe foi tirado, o homem subsiste, incólume, pairando sobranceiro e intocável. 

Esse arroubamento, porém, não estancou no círculo familiar. Ultrapassou-o e se generalizou, no seio da comunhão social, mercê do que era, em pessoa, e do muito que representava para todo o grupo étnico. 

Mas, afeição é feito doença, quando não cede, aumenta. E, como, a cada dia, mais crescesse na estima e consideração dos seus, não previu e nem pode impedir o inevitável. Sem querer, ou perceber, quando se deu conta, já era tarde, e o fenômeno, irreversível. Passara a centrar, em sua vontade vigorosa, as vontades tênues e indefinidas de sua gente, absorvendo-as, assimilando-as, como se pacto de uma adesão consentida, ou, então, num quase milagre humano de transubstanciacão dos anseios coletivos. 

Já se vê, e ninguém o negará - era mesmo um predestinado. Mas, com tal dimensão, muito mais, - era um justo! 

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