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História

De como todo comocomeçou, até se tornar Itaporanga.

Localização

Onde esta situada a cidade e a sua localização.

Região Matropolitana do Vale do Piancó

Localização e cidades que compoem esta região sertaneja.

José Brunet Ramalho

Primeiro Prefeito de Misericórdia.

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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O CURRAL E A FAZENDA


“De fato existe um tom mais leve na palidez deste pessoal
Pares de olhos tão profundos que amargam as pessoas que fitar
Mas que bebem suas vidas, suas almas a altura que mandar (...)”
(Avôhai, Zé Ramalho).

Como se formou a cidade de Itaporanga? Em torno de que atividades econômicas seu centro urbano começou a se desenvolver? Como eram as primeiras casas?As respostas para tais perguntas nos remetem ao século XVIII do período colonial brasileiro, uma época em que a sociedade do sertão paraibano está se formando com características próprias em torno do abastecimento de carne para o litoral da produção de açúcar. É neste contexto longínquo que um homem com sua gente – Antônio Vilela de Carvalho – vai desbravar o oeste paraibano se estabelecendo as margens do rio Piancó, onde mais tarde seria fundada a vila de Misericórdia.

Apesar de termos encontrado pouco a cerca de Antônio Vilela, sabemos que o mesmo era um desbravador português e que teria vindo de Pombal, adquirindo as terras junto a uma das maiores empresas de posse de terras do Brasil colonial a Casa da Torre, de propriedade de fidalgos portugueses, os Garcias D’ávila, donos de vasta sesmaria que receberam em forma de doação, com sede na Bahia, às margens do rio São Francisco. Os Garcias D’ávilla possuíam terras que abrangiam uma vasta área, passando praticamente por todo o sertão nordestino, da baia ao Rio Grande do Norte. É, em um pedaço dessa gigantesca posse de terras, que Antônio Vilela se encontrava no século XVIII.

Procuraremos aqui traçar um contexto do que foram aqueles primeiros anos de povoação do que ficaria conhecido como “Misericórdia Velha”, dentro da constituição e formação do próprio sertão paraibano de meados do século XVIII.

A vida no pequeno vilarejo se estabeleceu junto com a criação do curral , pertencente à freguesia de Piancó, que havia sido fundada em 1739. Seus limites deveriam ser muito abrangentes, com vastas extensões de terras que iam de Piancó a leste, ao Ceará, a oeste, como nos faz crer o tipo de ocupação daquele período de nossa história. A vida no vilarejo não deveria se diferenciar das outras localidades sertanejas do mesmo período. Misericórdia Velha possuía hábitos e costumes provavelmente iguais aos que fizeram surgir distinção entre os habitantes do sertão e os do litoral. Pois os sertanejos eram mais voltados para a criação de gado e os do litoral para a agricultura, principalmente a canavieira, - a pecuária bovina era proibida por lei no litoral, para não prejudicar o plantio de cana-de-açúcar – com isso “a expressão – sertão – ficou restrita a zona onde era exercida em grande escala a indústria pecuária; e – sertanejo – só eram chamados àqueles que aí habitavam; assim como – matutos e brejeiros – eram os nomes dados aos habitantes das [zonas das] matas e brejos” (JOFFILY, 1997, p. 23).


O pequeno vilarejo, apesar do seu engenho de produção de melaço e rapadura; e de sua agricultura (milho, feijão e principalmente mandioca, alimento básico do período colonial) tinha seu maior sustento na criação bovina, que tanto era de subsistência como de comercialização para outros centros, dos quais Recife era o maior consumidor. Os rebanhos eram vendidos nas feiras de Campina Grande e Itabaiana, cidades que se desenvolveram dentro da dinâmica comercial, de onde eram repassados para os mercados da capital (atual João Pessoa) e de Recife, pelo dobro ou triplo do preço original. Eram grandes boiadas que se deslocavam ao som do aboio do vaqueiro guia por até cem léguas de distância. Atrás, seguiam os fura-moitas a pé, de calças arregaçadas e cacetetes nas mãos, levavam numa bruaca, bolsa de couro, a tiracolo, farinha, rapadura e carne assada. (Cf. MARIZ, 1910, p. 48).

A alimentação dos primeiros habitantes de Misericórdia deveria ser muito centrada no consumo de carne, devido à pecuária, assim como o resto do sertão paraibano. Como podemos perceber, o gado era o centro dos aspectos econômicos e culturais (bumba-meu-boi e o pastoril), presentes na vida dos sertanejos e na denominação de algumas cidades paraibanas como: Curral Velho, Santana dos Garrotes e Boi Velho (atual Ouro velho). (Cf. MELO, 1997, p.80).

Como as propriedades de terras tinham grandes extensões neste período, o gado pastava livremente, o que urgia a necessidade da figura do vaqueiro, que se tornaria estereótipo popular do sertanejo, junto à figura do cangaceiro.

O historiador Irineu Joffily nos dá uma descrição quase épica acerca do vaqueiro daquele período. “Sua destreza nos exercícios eqüestre não era tanto de maravilhar nas várzeas, nos campos abertos, como nas cerradas caatingas, no encalço de um novilho barbatão. Não havia obstáculo vencido pela rez bravia que não pudesse ser vencido pelo cavaleiro, o qual, mantendo-se em posição horizontal, com a cabeça apoiada no pescoço de seu amestrado cavalo de fábrica, e segurando por uma extremidade a aguilhada de três metros de comprimento, acabava sempre por lançá-la por terra”. (JOFFILY, 1977, P.237).

Sobre as características do vilarejo, Misericórdia, no seu primeiro momento, surgia próxima ao curral de Antônio Vilela. Podemos dar uma descrição mais precisa de como isso ocorria nos primeiros núcleos do sertão utilizando o historiador Celso Mariz:

“(...) as casas eram de taipa e tristemente baixas com portas a longo espaços (...). As cacimbas (...) um fosso largo, quadrangular, assediado de estacas vegetais, exceto de um lado onde morre numa haste estendida a guisa de cais. A dois palmos desta um obstáculo de madeira evita nas ocasiões normais o remechemento d’água pelas rezes saciadas e vadias que, entretanto, ai mesmo, vertem o líquido dos rins intumescidos e expelem as matérias fecais, tornando venenosos, imprestável, o paupérrimo abastecimento”. (MARIZ, 1910, pp. 47-48).

Como podemos perceber, o pequeno vilarejo se constituía de casas de taipas incluindo-se aí a do próprio Antônio Vilela e um abastecimento de água baseado na escavação de poços. As casas feitas de tijolos e pedra só surgiriam num segundo momento da colonização de Misericórdia, quando alguns moradores, já no século XIX, atravessariam o rio e, na margem esquerda do seu curso, fundariam a vila de Misericórdia, atual espacialidade geográfica urbana de Itaporanga...

Professor Lourival Inácio Filho, Ouro Preto do Oeste – Rondônia.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Ou arrume seu quarto antes de ler!

Lourival Inácio

O ser humano sempre teve fascínio pelo infinito, à idéia de finitude parece para o humano algo incompleto, inacabado, imperfeito e por isso não muito bem assimilado pela nossa consciência. Daí a preocupação recente com o meio ambiente está intimamente associada com a de preservação da espécie.

O eterno na história sempre esteve presente nas mais variadas formas de cultura humana. De forma consciente ou inconsciente, desde as pinturas rupestres pré-históricas, passando pelas pirâmides no Egito, a formação das estruturas religiosas. O fim definitivamente não faz parte de nossa psicologia individual ou social. Acabam-se neste mundo para renascer em outro, divisão material/espiritual pertinente nas mais diversas culturas. 

Talvez por essa ojeriza a idéia de fim nos leve a reflexões a cerca de nossas relações com o mundo concreto e material consubstanciado na palavra natureza – enquanto meio de onde se extraí a nossa sobrevivência. A natureza, ao contrário do que muitos pensam, não se acabará, pois há no meio físico uma inabalável capacidade de readaptação e reestruturação que talvez nos falte diante dos avanços tecno-científicos que cria as necessidades do supérfluo consumista – A cidade de São Paulo produz mais de 12.000 toneladas de lixo por dia, com este lixo, em uma semana dá para encher um estádio para 80.000 pessoas – o que pode se acabar, e essa parte sim tem que se repensar, é a espécie humana.

Relatórios modernos e atuais fartamente noticiados pelas várias mídias nos trazem dados que nos alertam para uma possibilidade aterradora – não muito diferente das de décadas passadas – a idéia de que poderemos ter sérios problemas em conseqüência do modelo de desenvolvimento que escolhemos. Dos mais sentidos podemos destacar a questão já fartamente popularizada do derretimento progressivo das calotas polares e a conseqüente e provável inundação costeira pelo globo. 

Ledo engano nos colocarmos como visionários espirituais de um apocalipse teleológico já anunciado pelas escrituras e ficarmos no “eu não disse...” ou no “eu já sabia...”, pois nos colocaríamos diante de um dado determinista e já pré-estabelecido, independente do que se faça “o fim está próximo e é inevitável...” dando a história um determinismo que é anti-histórico e que colocaria a nós – humanos – como meras cobaias do destino.

Da descoberta do fogo – primeira fonte de energia – a descoberta da energia nuclear, a necessidade básica humana tem sido e sempre será a de alimentação, por mais desenvolvidas que sejam as tecnologias, não nos desprenderemos nunca desse aspecto animal inerente e que nos liga as demais espécies do globo, holisticamente falando. Essa necessidade de se manter, se sobrepor e subjugar tem levado ao uso indevido das fontes energéticas na manutenção de poder. Com elas – no caso da Segunda Guerra Mundial e por toda a chamada Guerra Fria – ou por elas – no caso dos vários conflitos envolvendo o petróleo do Oriente Médio.

No Brasil colonial, os europeus trouxeram da cultura inquisitória a idéia de fogo como expiação dos pecados (ou dos inimigos), a floresta tropical nas noites escuras do Brasil colônia era de onde vinha a chuva de flechas e onde moravam os deuses pagãos (história do imaginário), floresta que era empecilho para a produção comercial agrícola (história econômica) na dúvida queimá-la era e ainda é a melhor solução para muitos.

Mas, saindo do macro para o micro, não há o que nos mate mais que a rotina – e não estou falando do casamento – o nosso consumismo e a nossa comodidade (História Cotidiana) tem nos matado aos poucos, carros com seus dióxidos de carbono, churrascos de bois que pastam onde tínhamos florestas, carvão que assa o mesmo churrasco, que era a árvore de que falamos na ecologia, copos descartáveis, garrafas plásticas, baterias de celulares, veneno pra ervas daninhas do meu quintal, e sem irmos muito longe o lixo no piso da minha sala de aula e da minha escola.

Queremos mudar o mundo, mas não arrumamos o nosso quarto! 
Será que o poeta barroco estava certo?

A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana, e vinha,
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O “CABRA MACHO”: CANGAÇO, REPENTES E CORDEL NA CONSTRUÇÃO DO IMAGINÁRIO SERTANEJO.


Uma das características inerentes à construção do estereótipo cultural do sertanejo, vincula-se ao homem de certa forma rude que serve de moldura para o quadro da personalidade forte e espírito honroso que seriam inerentes ao nordestino. A esta construção estereotipada vinculam-se adjetivações como forte, resistente, intrépido, corajoso, orgulhoso e valente, consubstanciando no linguajar dos trópicos sertanejos na formação do dito “cabra macho”. [1]  

Construções imagéticas impregnadas de determinismos históricos e geográficos que se concretizaram na literatura do início do século XX, ligada aos aspectos de resistência humana ao meio seco, quente e árido.

[1] Visão negada pelo grande poeta Manuel Bandeira “Provinciano que nunca soube escolher bem uma gravata; Pernambucano a quem repugna a faca do pernambucano”.
Determinismo geográfico que prevaleceu por muito tempo na literatura científica ou de romance, onde podemos demarcar origens em Os Sertões de Euclides da Cunha.A herança desta construção de imagem do homem forte euclidiana pode ser anteriormente identificada na cultura popular que pode ir dos repentistas a Literatura de Cordel, onde há vasta produção de livretos e repentes sobre o tema do cangaço que tanto ajudou a proliferar e a popularizar esta visão do sertanejo e, em expansão, do nordestino, como se não houvesse diferenças culturais entre sertão e litoral, por exemplo. A figura do cangaceiro mitificou-se assim no imaginário de várias gerações como símbolo do “legítimo” espírito nordestino, nas descrições mais diversas e mais longínquas.

Construção histórica que passa por um processo de longa duração. Não é de hoje que se recorre a este “herói” popular e que às vezes se materializa de várias formas para atender a diversos interesses inclusive políticos. Ultrapassando inclusive as fronteiras nacionais e entrando em disputas geopolíticas mundiais, como ocorreu na Internacional Comunista, onde já se tentou utilizar o personagem como símbolo de resistência de guerrilha ao modelo capitalista na América Latina, como relata Eric Hobsbawn na sua famosa obra A era dos Extremos. 

Depois que tenentes rebeldes brasileiros como Luís Carlos Prestes passaram das caminhadas no sertão para o comunismo em fins da década de 1930, nenhum grupo esquerdista importante escolheu o caminho da guerrilha em outra parte (...) (Contudo, um tanto implausivelmente, a Internacional Comunista tentou apresentar sob essa luz Lampião, famosos bandido social brasileiro e herói de mil livrinhos de cordel). (HOBSBAWN, 1995, p. 85). 

As visões sobre o sertanejo se ampliam para a de Nordestino, caindo sempre na tentação da homogeneização em muitos casos. No seu romance A árvore que chora - sobre os migrantes nordestinos no Primeiro Ciclo da Borracha, na longínqua Amazônia – Vick Baum nos descreve o Cearense como os que, 

Crescem no lombo das montarias, firmando-se nos arreios com o dedo grande enganchado nos estribos. Para eles o amor, a honra, a vingança e a morte estão intimamente ligados. São pais tirânicos, amantes apaixonados e inimigos impiedosos. Orgulhosos, arrogantes, meigos e cruéis; e prendem-se à sua terra seca com um amor inexcedível, ardente e mudo” (BAUM , 1946, p.221 citada por GONDIM, Neide. A Invenção da Amazônia. São Paulo, Marco Zero, 1994. 277 pp.)            


 O Sertão paraibano também tem contribuições significativas nesta “linhagem” de “Cabras machos”, mas precisamente em Misericórdia, atual Itaporanga, entre fins do século XIX e início do século XX, o “coronel” Zuza Lacerda veio a contribuir com essas visões. Misto de história e mito é difícil distinguir o homem - José Cavalcanti de Lacerda – citado nos relatórios de presidentes da Província como o alferes que acabou com o temido bando dos cangaceiros Viriatos que aterrorizavam Misericórdia (atual Itaporanga) em 1879, do mito Zuza Lacerda que chegou a proclamar sua República da Estrela nos confins do sertão paraibano desafiando o poder local.       
    
A PELEJA DE ZUZA LACERDA E ZÉ PELEGRINO 

Um destes episódios que ajudam na estereotipação do sertanejo itaporanguense encontra-se na quase lendária história da República da Estrela e do seu personagem mais conhecido, o “coronel” José Cavalcanti de Lacerda ou, como é mais conhecido, Zuza Lacerda.    
       
O “coronel” Zuza Lacerda teria declarado parte de Misericórdia – o então distrito de Boa Ventura e sua fazenda, Curral Velho, atuais cidades desmembradas e independentes politicamente de Itaporanga, como independentes da Paraíba e proclamado uma república a qual batizou de República da Estrela. Precisar as datas é complexo pela escassez de fontes confiáveis. Sabe-se que os fatos teriam ocorridos nos primeiros anos da República no início do século XX, provavelmente entre 1905 e 1910.

Esta dita proclamação, não possuindo cunho ideológico profundo, constituía-se em mais um dos vários episódios coronelísticos por disputa de poder local, na qual se alicerçava a estrutura política e social de Misericórdia no início do século XX, não fossem as proporções adquiridas.      
     
A própria descrição tradicional de Zuza Lacerda já nos dá a estereotipia do sertanejo típico, misturando homem e mito:

Figura de baixa estatura, alvo, de faces avermelhadas, rosto redondo, olhos miúdos e claros ligeiramente azulados. Não tendo uma educação aprimorada, possuía, contudo, o dom das boas maneiras, que lhe davam um toque de pessoa de fidalguia. Ágil nos movimentos do corpo, tinha ímpetos de acrobata. Poder-se-ia dizer que tinha a agilidade de um gato quando se fazia preciso usar de rapidez. (FREIRE, 1974, p. 47-48).     

Para entender como o velho Zuza Lacerda ganhou fama e prestígio, é importante entendermos o contexto do final do século XIX em Misericórdia.

Em fins do século XIX era freqüente no alto sertão paraibano a presença de cangaceiros, que saqueavam as cidades e atemorizavam a vida de seus moradores. Isso ocorria por vários aspectos sócio-culturais e econômicos, bem como naturais – como a seca que insidiam sobre a região – somados ao abandono do poder público em especial pelo pouco efetivo policial da província, que geralmente era mais escasso no alto sertão.  Somando-se esses vários fatores tínhamos um cenário propício a tensões sociais.

Em fins do período imperial de nossa história, por volta da década de 1870, um desses bandos aterrorizava as cidades de Misericórdia, Piancó, Pombal e cercanias. Vindos da localidade Esperança, no Ceará, quase fronteira com a Paraíba, tal bando ganhou fama e preocupava o presidente da província paraibana, assim como o interior de Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará. Eram os cangaceiros chefiados pelo bandoleiro Viriato, líder do bando conhecido como Viriatos. A notícia chegou aos ouvidos da Corte, no Rio de Janeiro, que recomendou ao governo local o combate aos bandidos sociais. Logo se organizou uma força de linha que se deslocou da capital para o sertão.

Em Misericórdia a frente da linha de combate destacou-se o então alferes, delegado do termo de Misericórdia, José Cavalcanti de Lacerda, que durante uma semana de caça aos bandidos culminou com as prisões e fim, até o último dos viriatos, merecendo citação no relatório do presidente da província da Paraíba em 1879.

Criminosos muitas vezes têm zombado da lei e das autoridades, e não raro a elas resisto à mão armada (...) tenho a satisfação de declarar que muitas vezes das autoridades policiais têm cumprido o seu dever e efetuado prisões importantes, folgando de mencionar entre elas os delegados de Piancó e de Cajazeiras e principalmente o delegado de Misericórdia, alferes José Cavalcanti de Lacerda que, com verdadeiro heroísmo, conseguiu, em uma luta prolongada e mortífera, desbaratar, no dia 21 de julho, a tristemente celebre quadrilha de assassinos e roubadores, denominada – viriatos – (grifo meu), flagelo do interior desta província e das zonas de Pernambuco. Rio Grande do Norte e Ceará, que com essa província se limitam. (“Segurança individual e de propriedade” IN.: R.P.P.Pb ULYSSES MACHADO PEREIRA VIANNA, 1879, p. 6-7).          

Coronel Zuza Lacerda
Anos depois, já alçado a mito a figura de Zuza Lacerda, assim descreveu o episódio no jornal “Correio da Paraíba” de 20 de junho de 1961, o padre Manoel Otaviano.A mortandade foi assombrosa.

A força perdeu pouca gente e os bandidos que escaparam da refrega fugiram em desordem, procurando matas, serras, vales, esconderijos. A força fracionou-se dando caça onde eles se encontrassem. Zuza, com a fama conquistada em árduas pelejas, assumiu o comando de uma parte da tropa com as honras de Alferes Volante. Mais de mês de caçada humana. Na fazenda Jenipapo, município de Conceição, Zuza com sua gente pisou na barriga do último Viriato, depois de todo um dia de forte tiroteio. (Cf. FREIRE, 1974, p. 49).   
 Após esta façanha, o coronel Zuza viu seu prestígio e fama crescerem e foi outorgado com uma patente de coronel da Guarda Nacional, firmou-se eleitoralmente como líder político em Misericórdia.

Anos depois, com a chegada da República partiu para uma cadeira na Assembléia legislativa, o seu poder de influência nas decisões políticas do sertão tinham aumentado tenazmente. Amigo íntimo do desembargador José Peregrino de Araújo, candidato ao governo do Estado, deu-lhe apoio naquela eleição. Naquela oportunidade deu-se um fato curioso nas eleições estaduais para o mandato 1901-1904, a oposição deu como eleita a sua chapa, composta por João Tavares, Antônio Massa e Flávio Maroja; e, por seu lado, as hostes oficiais elegeram José Peregrino. Ao mesmo tempo, dois presidentes(hoje governador) haviam sido empossados para governar a Paraíba. O coronel Zuza Lacerda deslocou o seu pessoal armado para auxiliar ao amigo, se preciso fosse à conquista do poder (Cf.: FREIRE, 1874, p. 50). Apesar de a facção oposicionista contar com o apoio do então presidente da província José Peregrino, que governaria sob forte pressão oposicionista através da imprensa da época, principalmente dos jornais “O Comércio” e “O Combate”. Tendo que aceitar a candidatura do senador Álvaro Machado, que lhe substituiria no poder.

No Sertão, acabara de chegar para residir em Misericórdia, o deputado Wenceslau Lopes, genro do presidente José Peregrino, o que feria o prestígio e o poder local do coronel Zuza Lacerda perante o governo. Pois o presidente José Peregrino preferia apoiar o genro ao velho amigo. Aos poucos o velho Zuza foi perdendo o seu poder local para o forasteiro Wenceslau Lopes, que se firmou como líder político na cidade, as queixas de Zuza Lacerda ao governo já não tinham mais respostas. Frustrado com a política recolheu-se a sua fazenda Curral Velho e, sem se conformar com a perda de poder local, armou-se convenientemente e anunciou a independência de Misericórdia. Estava fundada a República da Estrela no Distrito de Boa ventura, que se tornou seu feudo Republicano. Diz à tradição que o velho Zuza tratou logo de organizar seu ministério, entre os amigos mais íntimos. Havia os ministérios da fazenda, Justiça, Guerra e por via das dúvidas o da Marinha. Organizou a feira –  a feira era uma das formas de demonstrar o desenvolvimento de uma localidade naquele período – onde ninguém pagava impostos, e partiu para o combate na sede do município, onde se travou luta com o pessoal do deputado Wenceslau Lopes, que se seguiram a contras reações e tentativas de acabar com o movimento. Não conseguindo penetrar no reduto da República da Estrela e já no final do governo do seu sogro José Peregrino a frente do Estado, o deputado Weceslau simplesmente deixou em paz o reino de Zuza Lacerda. Este também aquietou-se, e com o seu rival indo embora do município, o velho Zuza, também com seu prestígio arranhado, via-se sem sentido mais a existência da República da Estrela.

Percebe-se que a república da Estrela caracterizou-se mais como um movimento reacionário do que ideológico que tão bem descreve o período da República Velha no sertão paraibano, com um velho “coronel” que não estava disposto a perder o poder local, caracterizando-se assim tal disputa como mantenedora da estrutura de poder na região. Podiam-se mudar os mandatários, mas a estrutura era sempre a mesma de chefe político local clientelista e assistencialista baseado muitas vezes no sistema de compadrinho e, as vezes, na força. Será que isso ainda existe na Misericórdia atual?

Lourival Inácio Fillho

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Porque Itaporanga se chama Itaporanga


 “A escada de subir [ao poder] aqui em Itaporanga, eu guardo dentro do meu muro. Só sobe por ela quem eu determinar”. (Praxedes da Silva Pitanga).

“Desde o Império, os municípios brasileiros eram verdadeiros feudos políticos sob domínio das autoridades locais. Com a implantação do regime republicano, esse poderio floresceu – o chamado coronelismo” (Lúcia de Fátima Guerra Ferreira).

Praxedes da Silva Pitanga nasceu na Vila de Misericórdia em dois de março de 1896. Filho de Maximiano de Sousa Conserva, ex-seminarista pernambucano que se instalara em Misericórdia, em matrimônio com a filha do Capitão da Guarda Nacional, João Severino da Silva, a senhora Porfíria Lovina da Silva Conserva. Pitanga era, portanto, filho de uma família tradicional de Misericórdia. Faleceu com mais de 95 anos de idade, em 1991, era advogado de profissão. Na vida política foi prefeito, deputado estadual e federal.

Quando prefeito de Misericórdia (atual Itaporanga), nomeado em 1937 por Argemiro de Figueiredo, com a redemocratização e o fim do Estado Novo, mudou o nome do município, que sempre se chamou Misericórdia para Itaporanga. Intelectual de profunda retórica justificava a mudança de nome do município em 1980 em entrevista a pesquisadores universitários, da seguinte forma.

“Essa questão de nome de lugar traduz em si certo esnobismo. Cada povo, cada grupo humano, cada indivíduo se situa dentro de uma mística, ou seja, de acordo com aquilo que supõe ser verdade. Desde de muito moço eu me insurjo contra aquilo que não é história, embora pareça sê-lo... minha terra não tinha razão para se chamar Misericórdia. Com efeito: os povoadores da região, talvez inspirados nos costumes do tempo, iam dando as feitorias que plantavam o nome do santo do dia, ou de um acontecimento notável. Dou exemplo com os nomes de Conceição (invocação de Nossa Senhora), São Paulo, São Boa ventura, Santa Maria, Santana, e assim por diante.

Nunca consegui saber o porque desse nome de Misericórdia. Bati os arquivos dos cartórios e da paróquia; ouvi várias pessoas mais velhas, e não encontrei motivos para tal nome”.


A historicidade do nome vem em decorrência da sua vida religiosa, Itaporanga surgiu, em 1863, como freguesia com o nome de Nossa Senhora da Conceição de Misericórdia, como nos mostra documentações da época. Porém, chamo a atenção para o mais significativo, o nome que viria – Itaporanga – de origem tupi-guarani que significa “Pedra Bonita”, também não possui em si historicidade, uma vez que os índios que habitavam a região do atual município não eram tupi, mas sim cariri, os tapuias. Talvez, o que soasse mal aos ouvidos de Pitanga fosse o nome Misericórdia, que deveria ser mudado a qual quer custo, como nos faz notar em outro trecho de sua entrevista, quando após levar uma primeira recusa do Conselho de Geografia e História, em João Pessoa, retorna em sua empreitada, obstinado que estava:

“Pouco tempo depois, indo eu, eventualmente, ao palácio do governo deparei-me ali com o professor José de Melo, e Dr. José Mariz, que estavam dando os último retoques no novo quadro administrativo referente aos municípios, povoações ou distritos do Estado, na conformidade de decreto recentemente baixado pelo governo federal, que autorizava modificação justificável e de âmbito racional, na toponímia dessas entidades, por decreto dos respectivos governos estaduais".

"Eu então lhes disse em forma de cavaco, em tom amistoso...É isto mesmo, vocês estão corrigindo os nomes errados vários de municípios. Só não corrigem o de Misericórdia. Nome agourento, e interjeição de dor...”

O nome Misericórdia, talvez soasse mal aos ouvidos de Pitanga, não por ser algo agourento ou interjeição de dor, mas, de acordo com a tradição local, por ser muitas vezes motivo de chacota de outras localidades – como poderia se chamar Misericórdia um lugar com a fama de cidade violenta. E realmente, em períodos passados, era muito comum a luta entre as oligarquias locais, refregas familiares que presenciaram muito derramamento de sangue. O próprio Praxedes Pitanga vivenciou isto em sua história pessoal quando criança, com os episódios entre seu avô materno, João Severino da Silva e o deputado Antônio Tomaz de Aquino.

No Brasil, na década de 1930 a 40, como nos fala Pitanga, ocorreram várias mudanças de nomenclatura de municípios, no Nordeste houve uma febre de nomes tupi-guarani nas localidades e Pitanga propôs para Misericórdia o nome de Itaporanga, como ele nos fala:

“Eu então lembrei – Itaporanga para substituir Misericórdia. E justificando a mudança adiantei: existe bem próximo à cidade um majestoso serrote. Em tupi-guarani, Itaporanga significa Pedra Bonita. Como se vê em tal caso, que aquele símbolo pétreo plantado pela natureza bem se prestaria para dar nome à cidade; e por extencividade, ao município”. 

Se antes o nome Misericórdia não era considerado histórico por Pitanga, “por ser dado a santa do dia”, como dissera antes, agora lhe dava a pedra do dia, caracterizando-se mais pelo aspecto geográfico do que o histórico. Na verdade era uma questão pessoal do próprio Pitanga a mudança de nome. Seu poder de influência, não só a nível local, em Misericórdia, mas a nível estadual é bem descrito num momento em que ele descobre que o nome de Itaporanga já existia em uma localidade paraibana:

Município de Alcantil, antes Itaporanga
“Nessa altura, observou o professor José de Melo: Itaporanga já está posto num povoado de Cabaceiras, quase montado num penhasco. Sugira, pois, um nome para substituir o de Itaporanga já colocado no dito povoado. Eu então, num jacto, disse: Alcantil. Pronto! Todos gostaram da substituição, que veio libertar o nome de Itaporanga, para a mudança de Misericórdia”.

Não podemos dizer que esta última afirmação seja fidedigna de verdade. Será que todos realmente gostaram? Será que o pessoal do povoado próximo a Cabaceiras não reagiu? E por último, será que foi tal simples assim o processo de convencimento pela mudança de nome, como nos narra Pitanga? A verdade é que realmente, ainda nos dias atuais existe esta localidade próxima a Cabaceiras com o nome de Alcantil. O nome Itaporanga não pegaria num primeiro instante, como a maioria dos nomes impostos. Principalmente a facção oposta a Pitanga, liderada pelo seu primo, o médico e ex-aliado José Gomes da Silva, que era o prefeito de Misericórdia naquele período. Pitanga utilizou então de sua astúcia política, como nos narra:

“Procurando eu eliminar essa recusa que ele determinara aos seus amigos, usei de vários meios de propaganda, visando o novo nome vir a agradar todo o povo; e assim ‘pegasse’ o mais depressa possível. Mandei escreve-lo em todas as pedras marginais aos caminhos públicos; fazia reuniões com a garotada, com um saquinho de bombons às mãos, e perguntava; qual é a palavra do dia? Aquele menino que dissesse primeiro, - Itaporanga – ganharia os bombons.”.

Percebe-se aqui uma característica muito forte nas atitudes coronelísticas após 1930, era o uso de artimanhas e barganhas, quase sempre clientelísticas a fim de favorecer interesses próprios ou da localidade. O poder de influência de Pitanga junto aos seus comandados é muito bem explicado por ele em um fato que já faz parte, não só da tradição, como do folclore local:

“Convoquei os correligionários mais influentes, e lhes comuniquei: nossos adversários estão espalhando que os meus próprios amigos não estão querendo o novo nome. Portanto, quando se referirem à cidade, ou ao município, não digam Misericórdia.

Entre os correligionários convocados, figurava um muito ignorante; porém, muito mais que isto, lealdoso e obediente. Certa vez foi ele confessar-se, o padre iniciando a confissão mandou que rezasse a “Salve Rainha”, e começou confidente “salve rainha, mãe de Itaporanga”. O confessor surpreendido, reclamou: que heresia é esta meu filho! Diga salve rainha, mãe de Misericórdia. O confidente se explicou: Sr. Vigário, eu só digo Itaporanga; Dr. Pitanga não quer que se diga Misericórdia...(sic)”.

O nome de Misericórdia viria a ser substituído em 1938, pelo decreto-lei estadual nº. 1.164, de 15 de novembro, é quando pela primeira vez, em documento oficial se lê Itaporanga, ao invés de Misericórdia. Porém, cinco anos depois, em 1943, por conta de outro decreto-lei de nº. 520, voltaria a chamar-se Misericórdia, frustrando todas as estratégias de Pitanga para que o nome pegasse, favorecendo o grupo rival de José Gomes, contrário a mudança. Mas, quem levaria a melhor nesta queda de braço, pela comprovação de poder local seria Praxedes Pitanga. Em 7 de janeiro de 1948, por outro decreto estadual o de nº. 318 Misericórdia voltou definitivamente a chamar-se Itaporanga. Nome que permanece até os dias atuais. Após quase 11 anos, quando o município havia mudado de nome três vezes.

Sobre a última e definitiva mudança vozes se levantaram contrárias até a nível estadual, entre as quais a de Apolônio Nóbrega do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, que dizia na época:

“Misericórdia, velha e brilhante cidade do alto sertão, rica nas tradições de bravura e de civismo paraibano, fundada em 1865, voltou a ter a infeliz denominação de Itaporanga(...) É preciso convir que estas denominações indígenas são muito bonitas e oportunas para os ilustres componentes do Instituto Histórico do Rio de Janeiro(...) Amigo de nomes tradicionais, nunca pude aplaudir o IBGE, no sacrifício operado em 1944 na nomenclatura municipal do país(...) Por este motivo o Zé povinho paraibano vive implorando ‘Misericórdia’ para Itaporanga....”

E foi assim que esta cidade significativa e apaixonante do sertão paraibano, que agora recebe este periódico passou a chamar-se Itaporanga.

Lourival Inácio

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